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E a ciência atropela a teologia de novo…


O argumento cosmológico para a existência de Deus, aquele que diz que o Universo tem que ter tido um início e uma causa, é uma das principais armas de Craig e outros apologetas em debates, tanto que Craig dedicou doislivros inteiros a ele. Uma premissa vital do argumento, a mais discutida e aquela sobre a qual a maioria dos esforços dos filósofos cristãos se concentra é a que afirma que a existência do Universo teve um começo. E enquanto Craig está lá se contorcendo para usar o Big Bang como prova desse começo absoluto ou tentando arrumar um argumento a priori, a ciência, que está cuidando da sua vida, chega com essa hipótese fantástica e arrasadora: alguns buracos-negros podem ser mais velhos que o Big Bang!!! E isso é muito mais bonito, grandioso e instigante que a hipótese de que o Universo começou ali, apenas 14 bilhões de anos atrás, por vontade de um Ser que ficou entediado com a eternidade…

Anel de buracos-negros resultante de choque de galáxias! A ciência é muito mais fascinante! Cliqem na imagem para ver a história completa. Ah, a propósito, nessa escala aí, todo nosso sistema solar não é maior do que um pixel dessa foto...

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A discussão do Argumento Moral no debate com Craig


Falei rapidamente no post anterior sobre o Argumento Moral para a existência de Deus, um dos mais caros ao grande apologeta William Craig e talvez um dos mais intuitivos para o senso comum. No debate com Dacey, talvez o mais filosófico disponível por completo no Youtube, Craig responde assim à objeção de que falei e à negação da tese de que Deus seja a única explicação para valores morais objetivos:

Ele [Dacey] diz que mesmo que deus não exista, valores morais objetivos existem. E eu simplesmente o desafiaria a explicar a nós por que, no ateísmo, seres humanos são especiais, por que seres humanos têm valor. Ele sugere e também escreve isso em seu livro, que é a nossa capacidade de sofrer e ter projetos. Mas claramente todos os tipos de animais têm capacidade de sofrer e quanto a ter projetos, mesmo castores têm projetos, como fazer uma represa através do riacho. A capacidade de sofrer e ter projetos não mostram, ao meu ver, de forma alguma que seres humanos estão investidos de valor moral objetivo. Em todo caso, mesmo que nós fôssemos diferentes nesse sentido, porque isto constituiria um valor moral intrinsecamente objetivo? Isso é arbitrário no ateísmo. No ateísmo nós somos apenas animais e animais não são agentes morais. (…) eu não acho que Dr. Dacey conseguiu nesta noite explicar porque é plausível que, não existindo Deus, você ainda salve valores morais objetivos e o valor do ser humano. E ele diz, mas como Deus fundamenta o valor moral objetivo? Bem, simples, a natureza ou o caráter moral de Deus é o Bem. Deus é, por natureza, essencialmente amoroso, gentil, generoso, justo e assim por diante, e esta natureza se expressa para nós na forma de comandos divinos que constituem nossos deveres morais.

Estando sem tempo para uma discussão mais completa, vão aí algumas observações sobre essa resposta: Continue lendo


O Argumento Cosmológico Recauchutado


O carro chefe inquestionável do maior apologeta cristão de hoje em dia, William Lane Craig, é uma versão requentada por ele do Argumento Cosmológico para a existência de Deus. Esse argumento, cujo proponente mais famoso foi São Tomás de Aquino e que já estava esboçado na Metafísica de Aristóteles, está na boca do povo na forma da questão “se o Universo tem um começo, quem criou o Universo?”. Todo crente tem uma vaga noção desse argumento, então vamos ensinar aqui o básico de como ele funciona, antes de começar a desmontá-lo…iObs

A versão requentada de Craig tem o nome de Argumento Cosmológico Kalam, pois se inspira em alguns sub-argumentos utilizados por alguns filósofos muçulmanos da Idade Média, pertencentes a uma tradição teológica com esse nome. A novidade desses sub-argumentos, destinados a provar que o Universo teve um início e, portanto, é contingente e precisa ter sido criado, era o emprego de alguns paradoxos matemáticos com o infinito, principalmente uma conhecida propriedade de conjuntos infinitos: a possibilidade de colocar seus elementos em uma relação um para um com os elementos de um subconjunto e é por isso que existem tantos números pares quanto números naturais, mesmo sendo o conjunto daqueles somente uma parte do conjunto destes. Al Ghazali usou essa propriedade para argumentar que se o Universo não tivesse tido um começo e o tempo passado, por consequência, fosse infinito, chegaríamos à conclusão de que, embora a órbita de Júpiter seja completada em menos do que a metade do tempo que Saturno leva para completar a sua órbita, ambos os planetas teriam completado o mesmo número de voltas em torno do Sol, o que seria paradoxal. [Obs. pra mim: isso torna esse argumento mais forte do que o da impossibilidade do regresso ao infinito, respondido por Tomás no De Eternitate Mundi]

Apesar desse monumento aristotélico em Triunfo - PE, ninguém reza para o Motor Imóvel

Com a tese da não eternidade do mundo em mãos, o proponente do argumento pode juntar a afirmação de que tudo o que começa a existir tem uma causa e extrair a conclusão de que o Universo tem uma causa. Essa é a base da prova. Depois o cabra tem que ralar mais um pouquinho para mostrar que essa causa primeira é algo parecido com o Deus da religião, já que ninguém reza para o Motor Imóvel…

Bem, quem estiver interessado em conhecer uma versão fast-food da prova completa, incluindo essa parte em que se demonstra que a causa primeira é um Deus pessoal, transcendente etc. pode ver os dois primeiros vídeos do debate de Craig com o filósofo ateu Austin Dacey. O maior prejuízo da exposição mais rápida é a troca do argumento da impossibilidade de um infinito atual para a finitude do passado pelo recurso à teoria do Big Bang, como argumento para a tese de que o Universo teve um início. É uma má jogada, como mostra Dacey na sua objeção.

Seguindo a sugestão do Luke do Common Sense Atheism, também resolvi fazer um mapa do argumento usado por Craig no debate, acrescentando o sub-argumento para a finitude do passado. O bom desse mapa é dar a noção da complexidade da coisa toda e também fornecer um guia para as críticas. Já existem vários softwares para fazer esse tipo de mapa de argumentos, inclusive com espaço para as objeções, mas não tive muito tempo ainda de instalar e testar um deles. Por isso, fiz no Inkscape mesmo. Cliquem para ampliar.

Mapa do Argumento Cosmológico Kalam completo


Hume, Bayes e a Ressurreição de Jesus


Na linha isso-é-somente-um-bloco-de-notas vai aí esse vídeo em que William Craig responde a uma tese clássica de Hume sobre a epistemologia dos milagres e, dentre eles, a Ressurreição de Cristo. A tese de Hume ficou conhecida pelo motto altamente marketístico “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, mas nas suas próprias palavras foi assim colocada: “Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre a menos que o testemunho seja de um tipo tal que sua falsidade seria mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer

O uso para o caso da Ressurreição é simples: sendo esse evento elevadamente extraordinário (ou não, porque segundo Mateus houve uma epidemia de zumbis depois da crucificação) a evidência que nós precisamos para aceitar o relato que o descreve teria que ter um grau extraordinário de confiabilidade. Assim, mesmo que tivéssemos evidências em quantidade e qualidade equivalentes às utilizadas para estabelecer um fato histórico como a existência de Sócrates ou as circunstâncias da morte de César, o caráter extraordinário, miraculoso, do fato da Ressurreição faria com que elas fossem insuficientes.

Esse argumento me parece bastante razoável e eu fiquei bem curioso quando soube que Craig tinha calado a boca de Bart Ehrman (um scholar sobre Novo Testamento e Cristianismo primitivo) em um debate sobre a Ressurreição, respondendo à objeção de Hume com o Teorema de Bayes. Um resumo da sua resposta está no vídeo abaixo. Eu sei que deve existir uma versão mais sofisticada dessa resposta, mas como eu disse que isso era uma nota, vou deixar a análise do argumento usado no debate e da literatura sobre o assunto para depois.

O que eu acho estranho nessa resposta é que, como eu disse, Craig utiliza o Teorema de Bayes para responder Hume, mas eu tinha a impressão que era ponto pacífico na literatura que a tese de Hume sobre os milagres seria uma antecipação de Bayes. Nesse artigo e na transcrição do debate, parece que a objeção é a uma versão matematicamente tosca da tese de Hume, na qual a improbabilidade do fato seria diretamente comparada à improbabilidade do testemunho. Mas é aí que Bayes entra com a fórmula correta para avaliar o peso de uma evidência. Segundo ela a probabilidade de uma hipótese (H) dada uma certa evidência (E) é diretamente proporcional à probabilidade da hipótese em si mesma e à probabilidade da evidência dada a hipótese e inversamente proporcional à probabilidade da evidência em si mesma, ou seja, P(H|E) = [P(E|H)*P(H)]/P(E). Na Wikipédia e na Stanford Encyclopedia of Philosophy tem uns exemplos muito acessíveis, mas a idéia básica do exemplo da Wikipédia pode ser resumido assim: mesmo que um teste anti-drogas tenha precisão de 99%, se a ocorrência geral de uso de drogas na população a ser testada é de somente 5% um resultado positivo no teste só dá uma probabilidade de 33% de o testado usar drogas e não de 99% (vá lá na Wiki para os detalhes das contas). A certeza do teste é diminuída pela improbabilidade do testado ou, dito de outra maneira, para estabelecer um fato extremamente improvável é preciso um teste muito mais preciso. Pelas minhas contas, nesse exemplo da Wiki, um teste com precisão de 99,9% elevaria a confiabilidade do resultado para 83% e seria preciso um teste com 99,99% de confiabilidade para estabelecer uma certeza de 98% no uso de drogas. Ora, mas não é exatamente isso o que Hume diz? Bem, e mesmo que não seja exatamente isso, discussão que só interessa ao intérprete cri-cri do escocês, essa fórmula de Bayes não oferece um bom argumento contra milagres em geral e a Ressurreição?

Ora, para efeito do dogma a Ressurreição teria que ser um fato extraordinário, único e irrepetível na História (se bem que uma ressurreição dos mortos em si é algo bem vulgarizado na Bíblia). A resposta que Craig dá a Hume é que a probabilidade de “fatos” como a tumba vazia, as aparições de Jesus depois de sua morte e o espalhamento súbito da fé na Ressurreição sem que a Ressurreição tivesse de fato ocorrido, isto é, a probabilidade de um falso positivo, seria baixa demais e isso elevaria a probabilidade condicional da hipótese da Ressurreição relativamente às evidências. Mas essa avaliação da probabilidade da evidência é falsa. Considerados como fatos, esses relatos mostram eventos realmente improváveis, mas a evidência não são os fatos e sim os relatos destes fatos. Então a pergunta é: qual a (im)probabilidade de que esse tipo de relato acontecesse sem que tivesse acontecido uma Ressurreição? Ora, relatos de milagres, ressurreições, abduções para o Céu etc. ocorreram o tempo todo e nas mais diversas mitologias. Basta fazer uma compilação de um conjunto de Messias wannabe e Deuses ou Semi-deuses com características similares. A Wikipédia mais uma vez ajuda o blogueiro preguiçoso. A metáfora da divindade que morre e renasce é tão forte que a encontramos nas figuras de Asclépio, Orfeu, Krishna, Osiris, Tammuz, Dionísio e Odin. Na verdade, a Wiki tem um lista grande de deidades zumbis. Então, relatos de Ressurreição são algo relativamente trivial e, a menos que Craig decida aceitar um politeísmo gone wild, o índice de falsos positivos é enorme. Bem, mais leitura precisa ser feita e tem outros aspectos dos argumentos de Hume que são problemáticos, mas, pelo menos quanto ao uso da probabilidade e da lógica indutiva, parece que o escocês tem razão.