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Hume, Bayes e a Ressurreição de Jesus


Na linha isso-é-somente-um-bloco-de-notas vai aí esse vídeo em que William Craig responde a uma tese clássica de Hume sobre a epistemologia dos milagres e, dentre eles, a Ressurreição de Cristo. A tese de Hume ficou conhecida pelo motto altamente marketístico “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, mas nas suas próprias palavras foi assim colocada: “Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre a menos que o testemunho seja de um tipo tal que sua falsidade seria mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer

O uso para o caso da Ressurreição é simples: sendo esse evento elevadamente extraordinário (ou não, porque segundo Mateus houve uma epidemia de zumbis depois da crucificação) a evidência que nós precisamos para aceitar o relato que o descreve teria que ter um grau extraordinário de confiabilidade. Assim, mesmo que tivéssemos evidências em quantidade e qualidade equivalentes às utilizadas para estabelecer um fato histórico como a existência de Sócrates ou as circunstâncias da morte de César, o caráter extraordinário, miraculoso, do fato da Ressurreição faria com que elas fossem insuficientes.

Esse argumento me parece bastante razoável e eu fiquei bem curioso quando soube que Craig tinha calado a boca de Bart Ehrman (um scholar sobre Novo Testamento e Cristianismo primitivo) em um debate sobre a Ressurreição, respondendo à objeção de Hume com o Teorema de Bayes. Um resumo da sua resposta está no vídeo abaixo. Eu sei que deve existir uma versão mais sofisticada dessa resposta, mas como eu disse que isso era uma nota, vou deixar a análise do argumento usado no debate e da literatura sobre o assunto para depois.

O que eu acho estranho nessa resposta é que, como eu disse, Craig utiliza o Teorema de Bayes para responder Hume, mas eu tinha a impressão que era ponto pacífico na literatura que a tese de Hume sobre os milagres seria uma antecipação de Bayes. Nesse artigo e na transcrição do debate, parece que a objeção é a uma versão matematicamente tosca da tese de Hume, na qual a improbabilidade do fato seria diretamente comparada à improbabilidade do testemunho. Mas é aí que Bayes entra com a fórmula correta para avaliar o peso de uma evidência. Segundo ela a probabilidade de uma hipótese (H) dada uma certa evidência (E) é diretamente proporcional à probabilidade da hipótese em si mesma e à probabilidade da evidência dada a hipótese e inversamente proporcional à probabilidade da evidência em si mesma, ou seja, P(H|E) = [P(E|H)*P(H)]/P(E). Na Wikipédia e na Stanford Encyclopedia of Philosophy tem uns exemplos muito acessíveis, mas a idéia básica do exemplo da Wikipédia pode ser resumido assim: mesmo que um teste anti-drogas tenha precisão de 99%, se a ocorrência geral de uso de drogas na população a ser testada é de somente 5% um resultado positivo no teste só dá uma probabilidade de 33% de o testado usar drogas e não de 99% (vá lá na Wiki para os detalhes das contas). A certeza do teste é diminuída pela improbabilidade do testado ou, dito de outra maneira, para estabelecer um fato extremamente improvável é preciso um teste muito mais preciso. Pelas minhas contas, nesse exemplo da Wiki, um teste com precisão de 99,9% elevaria a confiabilidade do resultado para 83% e seria preciso um teste com 99,99% de confiabilidade para estabelecer uma certeza de 98% no uso de drogas. Ora, mas não é exatamente isso o que Hume diz? Bem, e mesmo que não seja exatamente isso, discussão que só interessa ao intérprete cri-cri do escocês, essa fórmula de Bayes não oferece um bom argumento contra milagres em geral e a Ressurreição?

Ora, para efeito do dogma a Ressurreição teria que ser um fato extraordinário, único e irrepetível na História (se bem que uma ressurreição dos mortos em si é algo bem vulgarizado na Bíblia). A resposta que Craig dá a Hume é que a probabilidade de “fatos” como a tumba vazia, as aparições de Jesus depois de sua morte e o espalhamento súbito da fé na Ressurreição sem que a Ressurreição tivesse de fato ocorrido, isto é, a probabilidade de um falso positivo, seria baixa demais e isso elevaria a probabilidade condicional da hipótese da Ressurreição relativamente às evidências. Mas essa avaliação da probabilidade da evidência é falsa. Considerados como fatos, esses relatos mostram eventos realmente improváveis, mas a evidência não são os fatos e sim os relatos destes fatos. Então a pergunta é: qual a (im)probabilidade de que esse tipo de relato acontecesse sem que tivesse acontecido uma Ressurreição? Ora, relatos de milagres, ressurreições, abduções para o Céu etc. ocorreram o tempo todo e nas mais diversas mitologias. Basta fazer uma compilação de um conjunto de Messias wannabe e Deuses ou Semi-deuses com características similares. A Wikipédia mais uma vez ajuda o blogueiro preguiçoso. A metáfora da divindade que morre e renasce é tão forte que a encontramos nas figuras de Asclépio, Orfeu, Krishna, Osiris, Tammuz, Dionísio e Odin. Na verdade, a Wiki tem um lista grande de deidades zumbis. Então, relatos de Ressurreição são algo relativamente trivial e, a menos que Craig decida aceitar um politeísmo gone wild, o índice de falsos positivos é enorme. Bem, mais leitura precisa ser feita e tem outros aspectos dos argumentos de Hume que são problemáticos, mas, pelo menos quanto ao uso da probabilidade e da lógica indutiva, parece que o escocês tem razão.

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