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Por quê discutir Filosofia da Religião?


A maioria dos filósofos profissionais de hoje em dia ainda deve torcer o nariz para o assunto. Com tanta questãozinha neoescolástica novinha em folha para ser discutida na filosofia analítica contemporânea, pra quê ainda mexer com esses temas tão batidos? Eu entendo em parte esse enfado, pois ainda sou um bocado kantiano e iluminista e costumava acreditar em algum mínimo progresso em filosofia e, em particular, acreditava que a maior parte das questões importantes que ainda garantiam um espaço para a religião na filosofia acadêmica já haviam sido resolvidas ou rejeitadas no conjunto de uma grande crítica à toda metafísica transcendente desde Kant até a Filosofia Analítica do começo do século XX. Mas a revolução técnica na lógica modal no meio do século trouxe de volta temas que pareciam enterrados pelo espírito anti-metafísico dos positivistas lógicos e seus sucessores, como o do essencialismo, uma concepção realista das modalidades e, claro, a existência de Deus. Uma enorme literatura teísta surgiu, com nomes como Alvin Plantinga e William Craig recauchutando velhos argumentos com um novo instrumental lógico e trouxe de volta o que pode ser uma fonte universal de interesse nessa discussão, que é o uso de problemas ligados à existência de Deus como estudo de caso para problemas mais gerais (e talvez mais importantes) de filosofia. Exemplos clássicos disso são o debate do conceito de existência no contexto do argumento ontológico, a discussão sobre causação e temporalidade no contexto do argumento cosmológico, a metafísica do tempo envolvida no problema dos futuros contingentes ou toda metafísica das modalidades que Leibniz criou para dar uma solução ao Problema do Mal.

Mas há uma outra motivação para discutir esses assuntos, uma motivação que eu confesso ser mais forte porquanto mais pessoal: uma motivação política e contra-apologética. A Religião teria somente esse limitado interesse como caso clínico para uma filosofia terapêutica se ela realmente se limitasse ao âmbito que ela diz ter quando evoca a liberdade constitucional de crença e quando foge das cobranças da racionalidade evocando uma experiência pessoal alheia às demandas da razão. Porém a Religião não é neutra, inócua, uma mera opinião pessoal sem maiores consequências. É por causa da prevalência que a religião ainda tem que meus amigos homossexuais não têm todos os direitos de um casal garantidos por lei. É por causa da religião que uma mulher grávida de um feto anencéfalo tem que suportar a dor de carregar um filho que não irá viver, como se todos fossem obrigados a ser mártires. É por causa da religião que um médico deixou uma menina de 13 anos morrer sem transfusão de sangue. A religião teve um papel de destaque em certo ponto das eleições presidenciais de 2010 e a busca da cooptação de um eleitorado conservador por governo e oposição só tende a aumentar esse papel no debate político. Nós estamos em país no qual uma conferência de bispos católicos tem voz na Suprema Corte em discussões que não dizem respeito à liberdade de religião, no qual a liberdade de religião é usada como desculpa para acobertar o que, no fundo, é somente um “direito” de discriminar e agredir e  que elege com mais de duzentos mil votos um pastor evangélico cujo maior feito intelectual, ao meu ver, deve ter sido o de conseguir condensar em 140 caracteres o uso de sua religião como base para seu racismo e sua homofobia. Salvo casos que vêm se tornando minoria, a religião tem usado a proteção constitucional às crenças privadas para entrar no debate da esfera pública sem, no entanto, se submeter às regras desse debate, as regras de um diálogo racional. E nesse ponto eu sou bastante iluminista: sem a Razão como um meio do diálogo, nós não obtemos uma tolerância da diversidade, mas somente um convívio potencialmente explosivo de um sem número de absolutismos.

E de alguma forma isso responde antecipadamente à crítica esperada de que os assuntos do primeiro parágrafo no fundo dizem pouco respeito aos do segundo, na medida em que ninguém acredita ou deixa de acreditar em Deus por causa do argumento ontológico e que a maioria dos pastores televisivos devem entendê-lo menos que o louco a quem Anselmo se dirigia. Eu sei que uma coisa é diferente da outra e que há casos de uma religião mais esclarecida que não implicam o tipo de atitude descrita acima. Porém a volta do tema à pauta da Filosofia não vem de uma força meramente interna à disciplina, mas está sim associada ao ressurgimento geral da Religião na sociedade. Discutir a construtibilidade ou não de um mundo possível no qual haja menos males do que o mundo atual é divertido (dentro do senso de diversão distorcido dos filósofos) e instrutivo quanto a aspectos dos modelos de modalidade utilizados, mas quando Plantinga evoca esse problema no contexto da discussão do Problema do Mal, ele está tentando salvar a racionalidade de uma das saídas que eu mais vejo ser utilizadas pelos leigos quando confrontados por essa clássica objeção ateísta. Além disso, apesar de toda a sofisticação intelectual de Plantinga e Craig, um sinal de sua associação com algumas idéias dos círculos religiosos mais conservadores dos EUA está na maneira como colocam em dúvida a evolução pela seleção natural ou até mesmo endossam o movimento do Design Inteligente. O ressurgimento desses temas em filosofia é um esforço de legitimação das posições religiosas no debate público e cabe aos críticos destas mostrar porque este lugar não lhes pertencem ou, no mínimo, estender a mão aos que têm, pelo menos, a dignidade de recorrer à via da racionalidade ao invés, por exemplo, do recurso à histeria dos pastores evangélicos e padres carismáticos.

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