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E os Hermanos estão na dianteira de novo!


Pena que brasileiro se importa mais em disputar com os argentinos em futebol do que no avanço das liberdades civis! No primeiro item nossa supremacia, com cinco títulos contra dois, parece segura por algum tempo, mas no segundo nós estamos levando uma goleada: os argentinos não abafaram os crimes do seu passado de ditadura e estão levando vários militares a julgamento, foram os primeiros na América Latina a aprovar como lei o casamento entre pessoas do mesmo sexo e agora grupos religiosos estão defendendo a legalização do aborto lá! Isso em um país onde a religião católica é a religião oficial!

Da matéria:

Em uma conferência com membros do Legislativo, o pastor Lisandro Orlov, da Igreja Evangélica Luterana Unida, afirmou que “é necessário tirar o tema [do aborto] do Código Penal para colocá-lo na perspectiva dos Direitos Humanos, do Evangelho e dos direitos das pessoas”.

“Limitar a discussão à descriminalização do aborto a um leilão entre quem está a favor e contra a prática é banalizá-la: ninguém pode estar a favor da interrupção de uma vida”, disse Mariel Pons, pastora da Igreja Evangélica Metodista. “O problema vai mais além desta falsa polarização: a mulher que busca o aborto o faz com angústia e tristeza. A comunidade tem que assumir esta realidade, não escondê-la, mas trazê-la à tona”, declarou a religiosa.

Segundo o rabino Daniel Goldman, “o aborto se pratica goste ou não a vizinha, o professor, o juiz, o religioso ou o legislador”

Leiam a matéria completa aqui: Na Argentina, religiosos defendem a legalização do aborto (Diário de Pernambuco). Via Jampa.

Enquanto isso, o que vemos no Brasil é esse tipo de coisa.

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Realpolitik do Senhor


Tenho mais o que fazer, ando ocupado demais para manter o blog em dia, mas dentro da temática que elegi para discutir aqui, não dá para ficar calado diante da péssima notícia do recuo do governo diante da pressão da bancada evangélica no caso da cartilha anti-homofobia (chamada de Kit Gay pela bancada da falta de neurônios). Muita gente vem defendendo o governo dizendo que é preciso ter realismo político e o governo precisava rifar essa discussão para tentar reverter o jogo no caso do Código Florestal e evitar a convocação do Palocci. Não defendo nenhum purismo político, mas todo cálculo de meios e fins só faz sentido se você ainda tiver fins. Há uma tênue linha entre ser uma raposa estrategista e virar um PMDB…

Diante desse fato é interessante notar que na arena da pura estratégia política a bancada religiosa mandou muito melhor do que o governo. É obviamente hipócrita e incoerente que os auto-declarados defensores da moralidade só tenham conseguido essa vitória sobre o governo mediante uma chantagem descarada, a ameaça de convocação de Palocci para depor sobre o seu enriquecimento súbito. Entre diversas opções analisadas pela bancada fundamentalista, segundo o site do inacreditável Marco Feliciano, havia pelo menos uma que representava a única forma razoável e legítima de atuação dessa bancada: a convocação do ministro Haddad para explicações, da mesma forma que a ministra Ana de Hollanda fora convocada para falar sobre as alterações na Lei de Direitos Autorais. Mas, ao invés disso, resolveram usar um assunto sem qualquer relação com o caso e na verdade barganharam “a defesa da família” ofertando em troca a não investigação de um político suspeito. Será que dar pitaco no assunto privado de como as pessoas usam seus órgãos sexuais é moralmente mais relevante do que investigar um potencial caso de corrupção? Será que os eleitores religiosos de boa fé de Marco Feliciano e Garotinho se sentem confortáveis com esse farisaísmo? Ou isso não mostra que todo discurso moralista não passa de uma ótima forma de desviar a atenção da manada de fiéis para longe do que realmente importa em política?

Este é o filme que todos os professores e pastores deviam ver e rever

Muita coisa podia ter sido discutida sobre os vídeos. A bancada do eletroencefalograma linear dizia que o vídeo fazia apologia da homossexualidade, o que, já argumentaram por aí nas internets, ou é algo completamente sem sentido ou algo sem relevância, porque não é um vídeo que vai fazer alguém mudar de orientação sexual. Como disseram, os homossexuais de hoje já são bombardeados por material midiático heterossexual e nem por isso deixaram de ter sua orientação. Os videos do kit anti-homofobia podem até ter alguns problemas. Questionar a qualidade do material tem sido uma estratégia de defesa tosca de alguns militantes. Dizem que Dilma vetou pessoalmente o Kit por não ter gostado dos filmes, o que seria a pior das defesas, pois ela estaria assim desautorizando o MEC, passando um atestado de incompetência de seus funcionários e mostrando estar incapacitada de delegar poderes.  Mas não sei. Não vi todos, achei um meio chatinho, mas o outro era legal. Particularmente, eu até acho que precisava era de um tratamento de choque mais forte. Como diria um amigo meu, um país que tem um Bolsonaro devia passar Priscila a Rainha do Deserto todos os dias na escola. E também acho que não precisa fazer nenhum filme para Kit Anti-Homofobia quando já se tem algumas pérolas como Meninos Não Choram e Minha Vida em Cor-de-Rosa. Mas o que aconteceu é que todo o debate interessante que podia acontecer sobre a melhor maneira de chegar ao objetivo (que devia ser incontroverso!) de combate ao bullying e de defesa dos direitos humanos foi eliminado pela histeria religiosa e pelo uso da tática da chantagem. O que era para ser uma discussão técnica do MEC e que, vá lá, podia até passar pela Comissão de Educação da Câmara, voltou à estaca zero. É por isso que a bancada religiosa não tem legitimidade para entrar nessa discussão: não apresentou um caminho melhor, não concordou nos objetivos, não reconheceu a existência do problema e só fez vetar a solução que tinha sido mais discutida. A posição religiosa radical não tem o direito de se apresentar como mais uma voz no debate porque a sua posição é a da eliminação do debate, as suas soluções são não soluções, como já ficou claro no caso da AIDS.

Para piorar, o governo ainda dá um passo para trás além do supostamente necessário quando o ministro Gilberto Carvalho declarou à reportagem do Globo que “qualquer outro material, daqui para frente, editado pelo governo sobre a questão de costumes passará pelo crivo amplo da sociedade e das bancadas interessadas”. Não só é terrível, como disse a Cynthia Semíramis, ver o assunto ser tratado como uma mera questão de “costumes” e não de direitos humanos, mas também ver o governo renunciar ao seu papel de transformador da sociedade para se transformar em um mero repetidor dos preconceitos já existentes. Uma lição da discussão do STF sobre a união estável de casal homoafetivo foi que direitos constitucionais e direitos humanos têm em seu caráter inegocíavel, uma função contra-majoritária. O papel das garantias constitucionais elementares é frear o poder potencialmente opressor das maiorias. A tática de Marina Silva nas eleições para disfarçar suas posições religiosas sobre diversos temas era dizer que eles deveriam ser tratados em plebiscitos, sabendo que, como no caso das armas, a maioria é conservadora e seria praticamente impossível qualquer mudança da legislação em pontos como a união homoafetiva ou a flexibilização da legislação criminal no casos das drogas e do aborto. Houve alguns avanços, como na decisão do STF sobre união homoafetiva, mas o meu Iluminismo não é hegeliano: não confio que a Razão irá triunfar sozinha sem uma boa briga. Talvez esses avanços precisem esperar por uma transformação na base da sociedade, uma mudança na consciência das pessoas, mas como esperar que isso aconteça se nós, os defensores da Razão, estamos concedendo aos adversários justamente o poder sobre as escolas?


A moralidade é dada por Deus?


Então, ops, como robôs puderam adquirir evolutivamente um comportamento altruísta?

via Slashdot e Science Magazine Even Robots Can Be Heroes

Artigo original: Waibel M, Floreano D, Keller L (2011) A Quantitative Test of Hamilton’s Rule for the Evolution of Altruism. PLoS Biol 9(5): e1000615. doi:10.1371/journal.pbio.1000615

O interessante dos modelos de Hamilton para a cooperação entre animais (ou entre membros de uma comunidade mesmo de máquinas)  é que, dada sua derivação a partir da Teoria dos Jogos, ela tem uma base matemática que permite atribuir objetividade a algumas das regras de conduta deriváveis dela. Vá lá que teorias descritivas não poderiam, a princípio, fundamentar a normatividade, mas é inegável a coincidência de regras morais tão importantes como a Regra de Ouro e o Imperativo Categórico com o algoritmo que teve maior sucesso evolutivo na antológica simulação do Dilema do Prisioneiro iterado por Axelrod, a tática do olho-por-olho.