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A hipótese da maconha como porta de entrada


No post de terça-feira passada, falei sobre o ressurgimento do debate sobre a maconha no Brasil, sobre as inconsistências na maneira como a lei lida com o princípio da autonomia do indivíduo e sobre o fato de haver evidências suficientes para que o debate dê um passo adiante e seja oficializado como um debate público e racional sobre o tema. O que não é possível, nessa altura da História da Humanidade, é manter o tema como um tabu, indiscutível e adotar a postura radical da direita religiosa, que sempre passa longe de uma solução responsável dos problemas.

Probabilidade Condicional e a Versão Boba do Argumento

Um tema que deixei de fora do outro post, mas que é um argumento clássico contra a legalização da maconha é o famoso argumento de que a maconha seria a “porta de entrada” para drogas mais pesadas, como a cocaína e a heroína. Esse argumento é tão batido e rebatido que já ouvi alguém dizer uma vez que a maconha seria sim a porta de entrada para os clichês sobre as drogas. Na versão diluída para consumo pelo senso comum e que roda pela internet sem citação de fonte, a maconha levaria ao consumo de drogas mais pesadas como a cocaína, porque 80% dos usuários de cocaína usam ou usaram maconha. Mas, supondo a validade do número e não duvido dele, existe um grande erro em inferir desse fato a tese da porta de entrada, que acontece porque as pessoas não entendem probabilidade condicional (usada neste blog para o fim menos nobre de analisar um Argumento sobre a Ressurreição de Jesus): esse número expressa a probabilidade condicional de ser um usuário de maconha dado que o cara é um usuário de cocaína ou, em outras palavras, o uso de cocaína como evidência para o uso de maconha. O necessário, porém, para defender o “gateway effect” seria a probabilidade condicional inversa: a chance de vir a ser um usuário de cocaína se for um usuário de maconha ou o uso da maconha como uma evidência/causa do uso de cocaína. Confundir isso é grosseiramente como confundir a probabilidade de ser animal dado que é humano (que é 1) com a probabilidade de ser humano dado que é animal (que é no mínimo de 1 em 3 milhões, o número estimado de espécies animais). A fórmula para calcular essa probabilidade condicional inversa é a fórmula de Bayes; a probabilidade de usar cocaína se usou maconha P(C|M) é igual à probabilidade de usar maconha se usou cocaína P(M|C) vezes a probabilidade isolada de usar cocaína P(C) dividida pela probabilidade isolada de usar maconha P(M). Usando as informações dessa pesquisa sobre uso de droga no Brasil e esse dado aí acima dos 80%, a fórmula fica P(C|M)=(0.023 x 0.8)/0.068=0.27 Ou seja, se é verdade que 6,8% da população usou maconha, 2,8% usou cocaína e que 80% das pessoas que consomem cocaína usam ou usaram maconha, então podemos estimar que em somente 27% dos casos o uso de maconha é uma evidência de uso de cocaína, o que não é um número tão elevado quanto a hipótese requer. Para ficar num contra-argumento mais simples e direto: seguindo essa mesma lógica, como provavelmente a esmagadora maioria dos usuários de cocaína bebem, nós poderíamos concluir que o álcool também seria a porta de entrada para drogas mais pesadas.

Brincando com os Números um pouco

Antes de ir atrás dos estudos mais específicos sobre o “gateway effect”,

Parece que não há uma relação forte entre uso de maconha e uso de cocaína

Correlação entre uso de maconha e uso de cocaína nas capitais

pensei em torturar um pouco os números de uma pesquisa do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas do Ministério da Justiça para ver se os dados de uso de drogas nos diferentes estados do Brasil poderiam dar suporte à tese de que o consumo de maconha leva ao consumo de cocaína. (Também foi uma desculpa para fazer esses bubble-charts cheios de informação*) Se existe o “gateway effect” nós deveríamos esperar uma correlação forte entre essas duas variáveis, um aumento no consumo de cocaína quando houvesse um aumento do consumo da maconha.

O que acontece é que há alguma relação, mas mais fraca do que poderia ser esperado para dar base à hipótese. A correlação entre os dois consumos é de 0.53 e regressão linear é bem fraquinha (R²=0.28, R², o coeficiente de determinação é uma medida do quanto as bolas seguem a linha de tendência). Se você prestar atenção no canto inferior esquerdo, tem um grupo de quinze cidades com baixo consumo de cocaína e maconha, para o qual valeria uma correlação inversa entre o consumo das duas drogas, e que, não coincidentemente, é formado por cidades com menor PIB per capita.

Há uma relação mais forte entre consumo de tabaco e de maconha

Outra constatação interessante é que dentre as cinco cidades com maior consumo de cocaína, três estão na região Norte e são rotas de entrada de cocaína no Brasil, o que favorece a tese de que a acessibilidade da cocaína é uma causa de uso mais importante do que o uso da maconha.

Mas o interessante mesmo é comparar esse gráfico com outro: o que representa a correlação entre uso de cigarro e uso de maconha. Nesse caso a correlação é mais forte (0.666) e a tendência é bem mais definida (R²=0.44). Dá para perceber isso no olhômetro mesmo, só comparando os gráficos.

Dificuldade de eliminar explicações alternativas

Claro, até aí só temos inferências indiretas a partir de dados epidemiológicos, dados agregados do uso em uma população. Vários estudos foram feitos focando em grupos de usuários e os seus históricos de uso de substâncias entorpecentes. Há alguns estudos que pretendem ter encontrado uma relação consistente com o “gateway effect”, o problema, no entanto, é que mesmo que os estudos mostrassem uma alta correlação no uso de maconha e de cocaína (que, como vimos, não há), isto é, se grande parte dos membros do grupo de usuários de maconha estivesse no grupo de usuários de cocaína, isso ainda não estabeleceria uma relação causal.

Poster de "Marijuana Girl"

O drama podia ser bem pior: a maconha é a porta de entrada para a prostituição!

Correlação não é causação, vocês já sabem disso. O que os estudos precisariam mostrar para estabelecer o efeito porta-de-entrada é que, além de existir essa correlação, não há explicação alternativa para ela melhor do que a explicação de que o uso de maconha causa o uso de outras drogas. Ou seja, os estudos precisariam mostrar que não acontece nesse caso o mesmo que acontecia num exemplo que eu gostava de usar em aulas de metodologia científica: há uma alta correlação entre o consumo de picolés na praia e o número de afogamentos; quando um sobe o outro sobe, quando um desce o outro desce; isso, porém, não implica que chupar picolé faça as pessoas se afogarem, mas sim que existe uma causa comum para os dois fenômenos, a saber, o número de pessoas na praia em um dado dia.

Pois bem, o que os estudos mais recentes mostram é que, mesmo quando há alguma correlação entre o uso de maconha e o uso de cocaína, a hipótese do efeito da porta de entrada não é melhor e, em alguns casos, é claramente pior do que explicações alternativas. Dentre estas duas se destacam: a hipótese da propensão, que diz que algumas pessoas estão propensas de qualquer forma à experimentação e talvez ao vício e a maconha só é experimentada primeiro por ser mais acessível, e a hipótese da acessibilidade, que defende que a verdadeira porta de entrada para drogas mais pesadas é a oferta fácil delas pelos mesmos meios usados para obter a maconha, quer dizer, que o que empurra o usuário de maconha para drogas mais pesadas é o contato forçado com traficantes por causa da criminalização da droga.

Dentre estudos interessantes nessa linha, existe um comparando o consumo de drogas em San Francisco e em Amsterdamcom a finalidade de comparar os efeitos das diferentes políticas para o problema e um dos resultados interessantes foi a constatação de um uso mais disseminado de maconha e de outras drogas em San Francisco comparado com Amsterdam. O uso alguma vez na vida das drogas mais

Pelo menos nao é crack!

pesadas é significativamente maior nos EUA (18% x 3.7% no caso do crack, por exemplo), sugerindo que a política holandesa de descriminalização da maconha é eficiente para evitar o contato dos usuários com traficantes de drogas mais pesadas e, portanto, bloquear a transição para essas drogas. Outro estudo, feito na Flórida e publicado no Journal of Health and Social Behavior, mostra uma leve correlação entre o uso de maconha na juventude e a experimentação de drogas mais pesadas, porém também mostrou que esse efeito desaparece por volta dos 21 anos e é fortemente influenciado por fatores de stress típicos dessa época, como dificuldade de arrumar um emprego. O autor concluir: “emprego no começo da idade adulta pode proteger as pessoas fechando a porta de entrada através da maconha, portanto sobre-criminalizar o uso juvenil de maconha pode criar problemas mais sérios se isso interferir com oportunidades futuras de emprego”.

Dentre outros estudos que podem ser citados contra o efeito da porta-de-entrada podemos tirar essa amostra:


* Gráficos produzidos com softwares livres: organização e processamento dos dados usando a linguagem R, produção do gráfico com a biblioteca ggplot2 e retoques finais no Inkscape. Os gráficos podem ser usados conforme a licença Creative Commons BY-NC, linkando para o blog.