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Qual desses casos é realmente desrespeito à pátria?


Todo mundo deve ter visto o caso dos soldados do Rio Grande do Sul que fizeram um vídeo dançando uma versão funk do Hino Nacional. Se não viu o vídeo, vê agora:

Segundo o Código Penal Militar, os soldados são puníveis com até dois anos de detenção pelo crime de desrespeitar um símbolo nacional. Segundo essa matéria do JB, alterações e arranjos no Hino têm que ser autorizados pela Presidência da República e a especificação da execução correta do Hino determina até a sua tonalidade, Si bemol! Mas duas coisas que vi nesse final de semana me fizeram parar para pensar se estamos sendo coerentes quando cobramos desses soldados o respeito pela farda e por um símbolo do país que defendem e não vemos como tantas outras coisas se assemelham a queimar a nossa bandeira.

PM incita desobediência e usa farda para fazer pregação

Nesses dias, outro vídeo começou a circular, mostrando um outro militar, um agente do Estado, usando um discurso religioso para estimular seus colegas à desobediência e ao desacato contra o Governador, que tão somente havia declarado achar aceitável que o PM que assim o desejasse poderia participar fardado da Parada Gay do Rio, da mesma maneira como polícias de outros países participam das manifestações equivalentes:

Para ser justo, pesquisando um pouco mais sobre o episódio, descobri que o “policial militar cristão” aí não está falando exatamente em não prestar serviço no dia da Parada, como entenderam diversos críticos do vídeo. Isso seria realmente muito grave, mas mais claramente passível de punição. Mesmo assim tem um buraco mais embaixo. A desculpa oficial da PMERJ é que o seu estatuto proíbe que policiais fora de serviço participem fardados de eventos civis em geral. Claro que a cúpula da polícia não tem manha para manter o jogo da desculpa formalista e cai logo em declarações homofóbicas que mostram como participar desse evento em particular seria uma falta especialmente grave. Um deles diz que não deixaria nenhum dos seus comandados participar do evento fardado ou não, ferindo o direito constitucional à manifestação do soldado enquanto cidadão, e outro solta uma frase que soa maravilhosa nesse contexto: “Homem meu não vai”. Em todo caso, a desculpa poderia colar. Embora a matéria de O Globo mostre como as polícias de diversos países dão seu apoio à causa da parada, não é irrazoável exigir que um agente do Estado não participe de manifestações civis em geral vestido como representante do Estado, mas sim somente como um cidadão, fora de serviço. Tá certo, mas então os comandantes também têm o dever de fiscalizar “seus homens” se eles quiserem participar de algo como a Marcha pela Família ou se o Capitão Melquisedec quiser de fato organizar uma manifestação dos “policiais militares cristãos” contra a homossexualidade. Ou melhor ainda, têm o dever de punir o Capitão Melquisedec por estar usando sua farda fora de serviço em um vídeo no qual faz uma pregação bíblica (e um bocado de besteirol pseudo-científico) tão pouco relacionada com seu trabalho quanto a participação na Parada:

Juiz passa por cima do STF e rasga a hierarquia institucional da Justiça

Pior ainda que o papel do Capitão Melquisedec foi o do juiz Jeronymo Pedro Villas Boas da 1ª Vara da Fazenda Pública Municipal e Registros Públicos de Goiânia que cancelou ex officio (por conta própria) o pedido de registro de união civil de um casal homoafetivo, conseguindo a proeza de se atribuir a competência de contestar uma decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o entendimento da Constituição! O juiz, repetindo o mesmo argumento furado propalado pela bancada evangélica e respondido de antemão nas decisões dos ministros do STF, alegou a inconstitucionalidade da decisão do STF por entender que ela estaria alterando um dispositivo da Constituição e, portanto, invadindo a competência legislativa do Congresso. O caso é ainda mais insustentável que o dos deputados porque estes ainda poderiam ter um traço de legitimidade na alegação de quebra na separação dos poderes, já que fazem parte do poder cuja competência supostamente estaria sendo usurpada e também porque não podemos pressupor que os legisladores tenham o conhecimento jurídico para entender os argumentos apresentados nas decisões do STF. Mas um juiz! De primeiro grau! É uma carreira na qual um cara com menos de trinta anos, sem necessariamente ter uma pós-graduação, selecionados por um concurso de intenso decoreba jurídico, começam ganhando mais do que um professor titular pesquisador IA do CNPq em fim de carreira. Por mais que nos melhores cursos se repita a necessidade de um conhecimento amplo do contexto social, filosófico etc em que a norma jurídica se insere, casos como este mostram como os concursos para juiz parecem passar longe de testar isso. O votos de Celso de Mello, Luiz Fux e Ayres Britto na decisão sobre a união homoafetiva foram brilhantes e mostraram um bom conhecimento de filósofos do direito e da política, mas no fundo não é um grau de erudição tão superior ao exigido de um professor universitário decente. Mas quando vemos um caso desse, fica parecendo que esse conhecimento do sentido do Direito, do significado mais profundo das normas e da Constituição, é um acaso, um dom que separa os possuidores do “notório saber jurídico” indicados para o STF dos demais juízes, como se isso não devesse ser exigido já no primeiro concurso. Seria preferível ter juízes que conhecessem um pouco menos todas as pequenas exceções e casos particulares de cada lei, mas que tivessem compreensão suficiente da natureza e do papel do Direito para não mandar para a cadeia um ladrão de cuecas usadas ou proibir com uso de força o exercício da liberdade de expressão. E seria também seria agradável exigir uma capacidade mínima em lógica para evitar o caso de um juiz, como esse de Goiânia, que, sob a desculpa de sanar uma invasão de competências, conseguiu cometer uma invasão de competências ainda mais grave!

Ainda há esperança que o CNJ apure o caso e puna o juiz, mas mesmo assim é de se lamentar que agentes do Estado como o capitão Melquisedec e o juiz Villas Bôas façam a aplicação da lei seguir suas agendas particulares. Não consegui achar a sentença na internet, nem sei se o juiz fez explicitamente menção a motivações religiosas, mas não consigo imaginar que outra motivação que não a referência a uma “lei maior” ou uma “lei de Deus” poderia fazer alguém afrontar dessa maneira a hierarquia da “Justiça dos homens”. A ameaça institucional nesse caso não deve ir muito longe, como também não deve ir no caso dos deputados que querem revogar a decisão do STF, mas já é assustador o próprio fato de que um juiz chegue a pensar nessa afronta às instituições ou que um jurista famoso como Ives Granda dê a dica aos evangélicos de que o Congresso pode usar o Exército para fazer valer a revogação da decisão do STF. E também é bom lembrar que não é sempre que casos em que juízes decidem baseados em seus preconceitos ganham a mídia e podemos chegar nos indignar com eles . Nem sempre há essa clara e direta afronta a uma decisão do Supremo e as vítimas nem sempre têm voz. Mas enquanto policiais puderem fazer pregações e discurso de ódio usando a farda que devia ser usada na proteção de todos os cidadãos igualmente e, enquanto juízes, que passam por uma seleção supostamente tão criteriosa e técnica, continuarem decidindo a aplicação da lei de um Estado laico conforme suas superstições, preconceitos e humores pessoais, a gente tem mais é que dançar o Hino Nacional em ritmo de funk! A avacalhação do símbolo espelha a avacalhação do simbolizado. Aqueles soldados são verdadeiros filósofos..

Em homenagem à época, fica aí um rala-bucho patriótico:


Senador ameaça renunciar se a homofobia for criminalizada


O senador Magno Malta prometeu dar um presente para a vida política brasileira hoje ao dizer que se o PL122 for aprovado ele irá renunciar ao seu mandato. Para vocês terem plena idéia de como nós só temos a ganhar com esse efeito colateral da aprovação do projeto de lei, tentem ver esse festival de imbecilidade exibido no vídeo abaixo (sobre o kit anti-homofobia do MEC) junto com um catálogo bastante extenso de falácias famosas dos livros de lógica.

Vou deixar para o leitor a identificação de falácia por falácia, mas não resisto em destacar alguns pontos baixos do discurso:

  • A insistência no “estão passando dos limites”, como se direitos civis tivessem limites.
  • “uma minoria barulhenta jamais se sobreporá sobre uma maioria que acredita na Família™ nesse país” (2’23”). Em primeiro, eu gostaria de acreditar que a minoria barulhenta na verdade é a dos religiosos lobotomizados que se incomodam tanto com a vida alheia, mas pode ser que eles já tenham virado maioria sim. Em todo caso, mesmo que a maioria da população do país seja formada pelos defensores da marca  Família Cristã™, tal como era formada a maioria do povo alemão nos anos 1930s, o que a minoria reinvidica são direitos humanos, direitos básicos, que existem justamente em contraposição ao rolo compressor da maioria. A decisão do STF sobre a união homoafetiva devia ficar na sua mesa de cabeceira para lembrar disso o tempo todo, senador…
  • Em 3’30” ele cobra explicitamente a conta do apoio a Dilma e do trabalho de cruzar “o país dentro de um jato dessatanizando a presidente”. Olha onde aquela bela campanha eleitoral nos deixou…
  • Em 04’20”, jogando o óleo para fazer uma bela ladeira escorregadia com a mirabolante história de uma jovem de 17 anos que tentou beijar uma criança de 11 à força, “calçada na decisão do STF”, e diante da resistência a espancou. Note que ele não diz que a jovem viajou na maionese ao interpretar a decisão, mas sim que ela tomou essa atitude com suporte na decisão do Supremo. Ou seja, ou fala de má-fé ou é um analfabeto funcional.

Um discurso tão equivocado e mal intencionado deveria ser falta de decoro parlamentar. O próprio mimimi de ameaçar renunciar caso perca o debate e não consiga impor a todos brasileiros aquilo que é produto somente de sua visão deturpada da fé também mostra a inaptidão do senador para a discussão democrática. Então já vai tarde. Devia renunciar logo antes da votação, por se recusar a ser parte de um jogo político que não tem as leis do Deuteronômio acima da Constituição Federal.

A Constituição está acima da Bíblia, get over it..

Se você não entende isso, senador, não deveria nem ter se candidatado...

Se você, ao contrário do senador, pensa honestamente e está minimamente interessado(a) em entender melhor o projeto anti-homofobia, creio que esse site sobre o PL122 explica bem todos os detalhes.


Deputados evangélicos contra o Estado de Direito


Deputados evangélicos, inconformados com a vitória da separação entre Igreja e Estado no STF, querem passar um decreto legislativo suspendendo a decisão que reconhece a união estável homoafetiva e atropelando a divisão dos poderes.

Ontem eu passei Jesus Camp para os meus alunos e um das lições mais claras do filme foi como toda a histeria no “treinamento” das crianças para serem soldados de Cristo serve desavergonhadamente a propósitos políticos. Os pastores não param em nenhum momento de pedir orações pelo presidente Bush, de falar de temas como a nomeação de ministros da Suprema Corte para crianças de 10 anos e, claro, de dizer que os EUA “são uma nação sob Deus” e que o aborto deve voltar a ser proibido lá. Em outro filme que quero passar semana que vem e que pretendo resenhar depois aqui, o Lake of Fire, um entrevistado denuncia que muitos ativistas evangélicos “pró-vida” (com todas as aspas dada a hipocrisia) desprezam profundamente as instituições do Estado e a democracia e aderem à “teonomia”, a idéia de que a lei de Deus é a fundação moral última das leis do Estado. Eles têm como cartilha um livro chamado The Institutes of Biblical Law que defende a pena capital para diversos crimes da lei mosaica, dentre eles a homossexualidade e a blasfêmia, e contém essa pérola de confissão: “cristandade é completa e radicalmente anti-democrática, ela está comprometida com a aristocracia espiritual” (verbete sobre o autor na wikipedia).

Os nossos pastores não parecem tão sofisticados. Felizmente. Ainda não vemos o tipo de terrorismo cristão que aparece em Lake of Fire voltado contra clínicas de aborto. Parece que nossos pastores televisivos têm o cuidado de não ir tão longe em sua pregação que acabem colocando seus lucros em perigo. Essa falta de pureza e a falta de ideólogos sofisticados o suficiente para propor uma doutrina purificada e radical nos protege um pouco, mas no ritmo em que as coisas vão não tardaremos a importar também esse tipo de babaquice dos EUA. O discurso típico dos teonomistas, o de que “a lei dos homens não pode se sobrepor à lei de Deus”, apareceu em diversos lugares depois daquela vitória e reafirmação do Estado laico que foi a decisão do STF sobre a união homoafetiva. Como eu disse no post sobre a decisão, o que estava em jogo não era só o direito de um grupo de pessoas, mas também uma luta contra uma das várias heranças arcaicas do Estado brasileiro, uma vitória das liberdades e direitos individuais, um pequeno reconhecimento (dentre tantos que ainda são necessários) do princípio básico de que as crenças de um grupo não podem ser impostas como regras para toda a sociedade. Os que comemoraram a decisão do STF não foram só os homossexuais potencialmente beneficiados por ela, mas todos os que prezam a democracia e esperam um Brasil menos obscurantista. E quando eu falo em derrotar o obscurantismo, falo de algo que será benéfico a todos. Não acho que é mera coincidência o crescimento vertiginoso do discurso religioso radical nos EUA e sua decadência econômica e tecnológica. Um país que admite o ensino do criacionismo nas escolas, nunca vai poder estar na vanguarda da ciência.

Mas, em todo caso, os negadores da democracia e do Estado de Direito não se conformaram. Não se contentando em ofender a separação entre Religião e Estado no âmbito do debate no STF, passaram a apelar para a chantagem política para reverter políticas de Estado contra a discriminação. Agora chegaram a um novo nível de desprezo pelas instituições: querem votar um decreto legislativo revogando a decisão do STF! Sob a alegação de que o STF invadiu as atribuições do poder legislativo (respondida já nos votos de alguns ministros), a bancada evangélica na Câmara está querendo promover uma real violação da separação entre os poderes. A idéia começou com esse exemplo perfeito de integridade moral cristã na política, que é o ungido e nada oportunista Anthony Garotinho e tomou a forma do PDC 224/11. O mais provável é que o PDC acabe sendo arquivado por inconstitucionalidade na própria Câmara, mas imaginem o que aconteceria se ele chegasse a ser aprovado. O STF teria que declarar a inconstitucionalidade de um decreto legislativo revogando uma decisão do STF sobre uma inconstitucionalidade! Legislar sobre os órgãos sexuais alheios é tão importante para os talibãs de Cristo que o risco de uma crise institucional vale a pena…

E para todos os que defendem que a lei de Deus está acima da “lei dos homens” fica o meu desejo que um dia apareça um presidente com coragem o suficiente para fazer como fez o presidente dos EUA, interpretado por Martin Sheen, com uma babaca da direita religiosa:


Algumas notas sobre a genuflexão de Dilma


No post de ontem falei sobre a bela jogada da bancada dos Farisees for Jesus e sobre o problema que é essa intromissão da religião na política. Muito foi discutido de ontem para hoje e aqui vão só algumas notas rápidas:

  • Uma das histórias que estão rolando na internet é que Dilma baseou-se em um material errado que não corresponde ao oficial elaborado (mas ainda não publicado) pelo MEC. Dizem que o honrado Anthony Garotinho foi quem mostrou a Dilma um material completamente diferente, voltado ao trabalho com viciados em drogas e prevenção de DSTs em profissionais do sexo. Se Dilma não ficou com uma pulga atrás da orelha sobre qualquer coisa vinda do Garotinho, já é complicado, se ela não ligou para o Haddad para checar a autenticidade do material, já beira a incompetência mesmo. Outra versão é que ela viu os vídeos pelas reportagens da TV. Do jeito que a coisa vai eu fico seriamente com medo que essas reportagens tenham sido o Super Pop bizarro de domingo passado e a matéria gritantemente tendenciosa do Jornal da Record.
  • A realpolitik de Dilma pode não dar certo. Ela sequer obteve o fechamento de posição da bancada religiosa contra a convocação do Palocci e Marco Feliciano, o meu estudo de caso patológico favorito, disse que agora diz respeito a cada um como votar nesse caso. Quer dizer, Dilma agora pode correr o risco de ser duplamente chantageada na mesma matéria, uma espécie de bi-tributação pela frouxeza.
  • Vários petistas mais ferrenhos estão usando o velho argumento da estratégia de longo prazo, de que Dilma está dando um passo atrás para dar dois à frente, que é preciso confiar nela (o Trending Topic #1 do Brasil era #confioemdilma, mas impulsionado por um bocado de gente sacaneando com a própria hashtag) e que ela está consciente da ameaça evangélica e está pensando como lidar com ela. Essa leitura telepática da mente da presidenta é encontrada nesse texto bem típico da justificação a posteriori de militância.
  • Esse texto diz que o jogo político é um jogo de xadrez. Na verdade é um jogo de poker, com blefes e ameaças, em que raramente se chega às cartas na mesa. O governo engoliu o blefe (até porque o Palocci tinha enfraquecido muito suas cartas), mas tinha (e ainda tem) outras munições. O jogo de ameça mútuas sempre tem muito de teatro; a bancada evangélica não ficaria nada confortável em uma oposição radical. O problema é que nessa big picture que os petistas tentam encontrar na estratégia da Dilma, os evangélicos têm pretensões próprias e é isso que pode servir para duvidar da realpolitik do PT. O que o governo não deveria tirar do foco é o fato de que Jesus tem sua própria agenda e pode trocar de lado em 2014. Os evangélicos estão comemorando a genuflexão de Dilma como um golaço. Imagina o efeito disso nas suas bases..
  • Votei em Dilma, falei um bocado a favor e aindo acho que a continuidade do governo de Lula é o melhor projeto político realista para o Brasil no momento. E também achava que ela representava o projeto político mais capacitado para fazer frente às forças retrógradas que pautaram o debate do segundo turno das Eleições de 2010. A gente não espera do nosso candidato só a busca da estabilidade e prosperidade econômica.  Por isso fico puto com o blablablá de que quem critica está fazendo a agenda da imprensa oposicionista. Se é verdade que o governo só tem cinco meses, também é verdade que se trata de um governo de continuidade. Não tem que arrumar a casa, reverter políticas e por isso a desculpa do “não deu tempo para mostrar serviço” não se aplica muito bem a casos como o do Kit Anti-Homofobia ou aos retrocessos no MINC. É claro que não é para se abater, mas eu acho que a entrevista do Haddad ontem mostrou um certo recuo do recuo que pode ter sido motivado pela gritaria da militância. Como eu disse acima, nos TTBr de ontem ficou no topo a hashtag #confioemdilma. Eu tenho esperança no governo dela, fiz a aposta, mas isto não é um cheque em branco. Não tenho cargo de confiança no governo, não me beneficio da mera permanência de um grupo no poder. Não acho que ela deva ser poupada de pressões num momento desses, porque não acredito que nada esteja garantido.
  • Em todo caso, para complicar todo o festival de explicações dos militantes mais ferrenhos Dilma deu essa declaraçaõ horrorosa, que eu preferia que fosse boato, mas não é, e que é próxima demais às coisas que Bolsonaro et caterva costumam dizer para não se sentir incomodado:

Alguns textos sobre a confusão (em um amplo espectro de posições):

Código Florestal e Chapeuzinho Vermelho de Miguel do Rosário

Somos Todos Reféns da Política Partidária? de Amanda Vieira

O Governo Entrega o Ouro de Tsavkko

Dilma Roussef, Palocci e os Omeletes de Rodrigo Vianna

Palocci e as Escolhas de Dilma Rousseff de Rodrigo Vianna


Realpolitik do Senhor


Tenho mais o que fazer, ando ocupado demais para manter o blog em dia, mas dentro da temática que elegi para discutir aqui, não dá para ficar calado diante da péssima notícia do recuo do governo diante da pressão da bancada evangélica no caso da cartilha anti-homofobia (chamada de Kit Gay pela bancada da falta de neurônios). Muita gente vem defendendo o governo dizendo que é preciso ter realismo político e o governo precisava rifar essa discussão para tentar reverter o jogo no caso do Código Florestal e evitar a convocação do Palocci. Não defendo nenhum purismo político, mas todo cálculo de meios e fins só faz sentido se você ainda tiver fins. Há uma tênue linha entre ser uma raposa estrategista e virar um PMDB…

Diante desse fato é interessante notar que na arena da pura estratégia política a bancada religiosa mandou muito melhor do que o governo. É obviamente hipócrita e incoerente que os auto-declarados defensores da moralidade só tenham conseguido essa vitória sobre o governo mediante uma chantagem descarada, a ameaça de convocação de Palocci para depor sobre o seu enriquecimento súbito. Entre diversas opções analisadas pela bancada fundamentalista, segundo o site do inacreditável Marco Feliciano, havia pelo menos uma que representava a única forma razoável e legítima de atuação dessa bancada: a convocação do ministro Haddad para explicações, da mesma forma que a ministra Ana de Hollanda fora convocada para falar sobre as alterações na Lei de Direitos Autorais. Mas, ao invés disso, resolveram usar um assunto sem qualquer relação com o caso e na verdade barganharam “a defesa da família” ofertando em troca a não investigação de um político suspeito. Será que dar pitaco no assunto privado de como as pessoas usam seus órgãos sexuais é moralmente mais relevante do que investigar um potencial caso de corrupção? Será que os eleitores religiosos de boa fé de Marco Feliciano e Garotinho se sentem confortáveis com esse farisaísmo? Ou isso não mostra que todo discurso moralista não passa de uma ótima forma de desviar a atenção da manada de fiéis para longe do que realmente importa em política?

Este é o filme que todos os professores e pastores deviam ver e rever

Muita coisa podia ter sido discutida sobre os vídeos. A bancada do eletroencefalograma linear dizia que o vídeo fazia apologia da homossexualidade, o que, já argumentaram por aí nas internets, ou é algo completamente sem sentido ou algo sem relevância, porque não é um vídeo que vai fazer alguém mudar de orientação sexual. Como disseram, os homossexuais de hoje já são bombardeados por material midiático heterossexual e nem por isso deixaram de ter sua orientação. Os videos do kit anti-homofobia podem até ter alguns problemas. Questionar a qualidade do material tem sido uma estratégia de defesa tosca de alguns militantes. Dizem que Dilma vetou pessoalmente o Kit por não ter gostado dos filmes, o que seria a pior das defesas, pois ela estaria assim desautorizando o MEC, passando um atestado de incompetência de seus funcionários e mostrando estar incapacitada de delegar poderes.  Mas não sei. Não vi todos, achei um meio chatinho, mas o outro era legal. Particularmente, eu até acho que precisava era de um tratamento de choque mais forte. Como diria um amigo meu, um país que tem um Bolsonaro devia passar Priscila a Rainha do Deserto todos os dias na escola. E também acho que não precisa fazer nenhum filme para Kit Anti-Homofobia quando já se tem algumas pérolas como Meninos Não Choram e Minha Vida em Cor-de-Rosa. Mas o que aconteceu é que todo o debate interessante que podia acontecer sobre a melhor maneira de chegar ao objetivo (que devia ser incontroverso!) de combate ao bullying e de defesa dos direitos humanos foi eliminado pela histeria religiosa e pelo uso da tática da chantagem. O que era para ser uma discussão técnica do MEC e que, vá lá, podia até passar pela Comissão de Educação da Câmara, voltou à estaca zero. É por isso que a bancada religiosa não tem legitimidade para entrar nessa discussão: não apresentou um caminho melhor, não concordou nos objetivos, não reconheceu a existência do problema e só fez vetar a solução que tinha sido mais discutida. A posição religiosa radical não tem o direito de se apresentar como mais uma voz no debate porque a sua posição é a da eliminação do debate, as suas soluções são não soluções, como já ficou claro no caso da AIDS.

Para piorar, o governo ainda dá um passo para trás além do supostamente necessário quando o ministro Gilberto Carvalho declarou à reportagem do Globo que “qualquer outro material, daqui para frente, editado pelo governo sobre a questão de costumes passará pelo crivo amplo da sociedade e das bancadas interessadas”. Não só é terrível, como disse a Cynthia Semíramis, ver o assunto ser tratado como uma mera questão de “costumes” e não de direitos humanos, mas também ver o governo renunciar ao seu papel de transformador da sociedade para se transformar em um mero repetidor dos preconceitos já existentes. Uma lição da discussão do STF sobre a união estável de casal homoafetivo foi que direitos constitucionais e direitos humanos têm em seu caráter inegocíavel, uma função contra-majoritária. O papel das garantias constitucionais elementares é frear o poder potencialmente opressor das maiorias. A tática de Marina Silva nas eleições para disfarçar suas posições religiosas sobre diversos temas era dizer que eles deveriam ser tratados em plebiscitos, sabendo que, como no caso das armas, a maioria é conservadora e seria praticamente impossível qualquer mudança da legislação em pontos como a união homoafetiva ou a flexibilização da legislação criminal no casos das drogas e do aborto. Houve alguns avanços, como na decisão do STF sobre união homoafetiva, mas o meu Iluminismo não é hegeliano: não confio que a Razão irá triunfar sozinha sem uma boa briga. Talvez esses avanços precisem esperar por uma transformação na base da sociedade, uma mudança na consciência das pessoas, mas como esperar que isso aconteça se nós, os defensores da Razão, estamos concedendo aos adversários justamente o poder sobre as escolas?


Respondendo a homofobisteria dos pastores


Melhor coleção de reduções ao ridículo dos argumentos religiosos contra o casamento gay…