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Senador ameaça renunciar se a homofobia for criminalizada


O senador Magno Malta prometeu dar um presente para a vida política brasileira hoje ao dizer que se o PL122 for aprovado ele irá renunciar ao seu mandato. Para vocês terem plena idéia de como nós só temos a ganhar com esse efeito colateral da aprovação do projeto de lei, tentem ver esse festival de imbecilidade exibido no vídeo abaixo (sobre o kit anti-homofobia do MEC) junto com um catálogo bastante extenso de falácias famosas dos livros de lógica.

Vou deixar para o leitor a identificação de falácia por falácia, mas não resisto em destacar alguns pontos baixos do discurso:

  • A insistência no “estão passando dos limites”, como se direitos civis tivessem limites.
  • “uma minoria barulhenta jamais se sobreporá sobre uma maioria que acredita na Família™ nesse país” (2’23”). Em primeiro, eu gostaria de acreditar que a minoria barulhenta na verdade é a dos religiosos lobotomizados que se incomodam tanto com a vida alheia, mas pode ser que eles já tenham virado maioria sim. Em todo caso, mesmo que a maioria da população do país seja formada pelos defensores da marca  Família Cristã™, tal como era formada a maioria do povo alemão nos anos 1930s, o que a minoria reinvidica são direitos humanos, direitos básicos, que existem justamente em contraposição ao rolo compressor da maioria. A decisão do STF sobre a união homoafetiva devia ficar na sua mesa de cabeceira para lembrar disso o tempo todo, senador…
  • Em 3’30” ele cobra explicitamente a conta do apoio a Dilma e do trabalho de cruzar “o país dentro de um jato dessatanizando a presidente”. Olha onde aquela bela campanha eleitoral nos deixou…
  • Em 04’20”, jogando o óleo para fazer uma bela ladeira escorregadia com a mirabolante história de uma jovem de 17 anos que tentou beijar uma criança de 11 à força, “calçada na decisão do STF”, e diante da resistência a espancou. Note que ele não diz que a jovem viajou na maionese ao interpretar a decisão, mas sim que ela tomou essa atitude com suporte na decisão do Supremo. Ou seja, ou fala de má-fé ou é um analfabeto funcional.

Um discurso tão equivocado e mal intencionado deveria ser falta de decoro parlamentar. O próprio mimimi de ameaçar renunciar caso perca o debate e não consiga impor a todos brasileiros aquilo que é produto somente de sua visão deturpada da fé também mostra a inaptidão do senador para a discussão democrática. Então já vai tarde. Devia renunciar logo antes da votação, por se recusar a ser parte de um jogo político que não tem as leis do Deuteronômio acima da Constituição Federal.

A Constituição está acima da Bíblia, get over it..

Se você não entende isso, senador, não deveria nem ter se candidatado...

Se você, ao contrário do senador, pensa honestamente e está minimamente interessado(a) em entender melhor o projeto anti-homofobia, creio que esse site sobre o PL122 explica bem todos os detalhes.


Deputados evangélicos contra o Estado de Direito


Deputados evangélicos, inconformados com a vitória da separação entre Igreja e Estado no STF, querem passar um decreto legislativo suspendendo a decisão que reconhece a união estável homoafetiva e atropelando a divisão dos poderes.

Ontem eu passei Jesus Camp para os meus alunos e um das lições mais claras do filme foi como toda a histeria no “treinamento” das crianças para serem soldados de Cristo serve desavergonhadamente a propósitos políticos. Os pastores não param em nenhum momento de pedir orações pelo presidente Bush, de falar de temas como a nomeação de ministros da Suprema Corte para crianças de 10 anos e, claro, de dizer que os EUA “são uma nação sob Deus” e que o aborto deve voltar a ser proibido lá. Em outro filme que quero passar semana que vem e que pretendo resenhar depois aqui, o Lake of Fire, um entrevistado denuncia que muitos ativistas evangélicos “pró-vida” (com todas as aspas dada a hipocrisia) desprezam profundamente as instituições do Estado e a democracia e aderem à “teonomia”, a idéia de que a lei de Deus é a fundação moral última das leis do Estado. Eles têm como cartilha um livro chamado The Institutes of Biblical Law que defende a pena capital para diversos crimes da lei mosaica, dentre eles a homossexualidade e a blasfêmia, e contém essa pérola de confissão: “cristandade é completa e radicalmente anti-democrática, ela está comprometida com a aristocracia espiritual” (verbete sobre o autor na wikipedia).

Os nossos pastores não parecem tão sofisticados. Felizmente. Ainda não vemos o tipo de terrorismo cristão que aparece em Lake of Fire voltado contra clínicas de aborto. Parece que nossos pastores televisivos têm o cuidado de não ir tão longe em sua pregação que acabem colocando seus lucros em perigo. Essa falta de pureza e a falta de ideólogos sofisticados o suficiente para propor uma doutrina purificada e radical nos protege um pouco, mas no ritmo em que as coisas vão não tardaremos a importar também esse tipo de babaquice dos EUA. O discurso típico dos teonomistas, o de que “a lei dos homens não pode se sobrepor à lei de Deus”, apareceu em diversos lugares depois daquela vitória e reafirmação do Estado laico que foi a decisão do STF sobre a união homoafetiva. Como eu disse no post sobre a decisão, o que estava em jogo não era só o direito de um grupo de pessoas, mas também uma luta contra uma das várias heranças arcaicas do Estado brasileiro, uma vitória das liberdades e direitos individuais, um pequeno reconhecimento (dentre tantos que ainda são necessários) do princípio básico de que as crenças de um grupo não podem ser impostas como regras para toda a sociedade. Os que comemoraram a decisão do STF não foram só os homossexuais potencialmente beneficiados por ela, mas todos os que prezam a democracia e esperam um Brasil menos obscurantista. E quando eu falo em derrotar o obscurantismo, falo de algo que será benéfico a todos. Não acho que é mera coincidência o crescimento vertiginoso do discurso religioso radical nos EUA e sua decadência econômica e tecnológica. Um país que admite o ensino do criacionismo nas escolas, nunca vai poder estar na vanguarda da ciência.

Mas, em todo caso, os negadores da democracia e do Estado de Direito não se conformaram. Não se contentando em ofender a separação entre Religião e Estado no âmbito do debate no STF, passaram a apelar para a chantagem política para reverter políticas de Estado contra a discriminação. Agora chegaram a um novo nível de desprezo pelas instituições: querem votar um decreto legislativo revogando a decisão do STF! Sob a alegação de que o STF invadiu as atribuições do poder legislativo (respondida já nos votos de alguns ministros), a bancada evangélica na Câmara está querendo promover uma real violação da separação entre os poderes. A idéia começou com esse exemplo perfeito de integridade moral cristã na política, que é o ungido e nada oportunista Anthony Garotinho e tomou a forma do PDC 224/11. O mais provável é que o PDC acabe sendo arquivado por inconstitucionalidade na própria Câmara, mas imaginem o que aconteceria se ele chegasse a ser aprovado. O STF teria que declarar a inconstitucionalidade de um decreto legislativo revogando uma decisão do STF sobre uma inconstitucionalidade! Legislar sobre os órgãos sexuais alheios é tão importante para os talibãs de Cristo que o risco de uma crise institucional vale a pena…

E para todos os que defendem que a lei de Deus está acima da “lei dos homens” fica o meu desejo que um dia apareça um presidente com coragem o suficiente para fazer como fez o presidente dos EUA, interpretado por Martin Sheen, com uma babaca da direita religiosa:


E os Hermanos estão na dianteira de novo!


Pena que brasileiro se importa mais em disputar com os argentinos em futebol do que no avanço das liberdades civis! No primeiro item nossa supremacia, com cinco títulos contra dois, parece segura por algum tempo, mas no segundo nós estamos levando uma goleada: os argentinos não abafaram os crimes do seu passado de ditadura e estão levando vários militares a julgamento, foram os primeiros na América Latina a aprovar como lei o casamento entre pessoas do mesmo sexo e agora grupos religiosos estão defendendo a legalização do aborto lá! Isso em um país onde a religião católica é a religião oficial!

Da matéria:

Em uma conferência com membros do Legislativo, o pastor Lisandro Orlov, da Igreja Evangélica Luterana Unida, afirmou que “é necessário tirar o tema [do aborto] do Código Penal para colocá-lo na perspectiva dos Direitos Humanos, do Evangelho e dos direitos das pessoas”.

“Limitar a discussão à descriminalização do aborto a um leilão entre quem está a favor e contra a prática é banalizá-la: ninguém pode estar a favor da interrupção de uma vida”, disse Mariel Pons, pastora da Igreja Evangélica Metodista. “O problema vai mais além desta falsa polarização: a mulher que busca o aborto o faz com angústia e tristeza. A comunidade tem que assumir esta realidade, não escondê-la, mas trazê-la à tona”, declarou a religiosa.

Segundo o rabino Daniel Goldman, “o aborto se pratica goste ou não a vizinha, o professor, o juiz, o religioso ou o legislador”

Leiam a matéria completa aqui: Na Argentina, religiosos defendem a legalização do aborto (Diário de Pernambuco). Via Jampa.

Enquanto isso, o que vemos no Brasil é esse tipo de coisa.


Algumas notas sobre a genuflexão de Dilma


No post de ontem falei sobre a bela jogada da bancada dos Farisees for Jesus e sobre o problema que é essa intromissão da religião na política. Muito foi discutido de ontem para hoje e aqui vão só algumas notas rápidas:

  • Uma das histórias que estão rolando na internet é que Dilma baseou-se em um material errado que não corresponde ao oficial elaborado (mas ainda não publicado) pelo MEC. Dizem que o honrado Anthony Garotinho foi quem mostrou a Dilma um material completamente diferente, voltado ao trabalho com viciados em drogas e prevenção de DSTs em profissionais do sexo. Se Dilma não ficou com uma pulga atrás da orelha sobre qualquer coisa vinda do Garotinho, já é complicado, se ela não ligou para o Haddad para checar a autenticidade do material, já beira a incompetência mesmo. Outra versão é que ela viu os vídeos pelas reportagens da TV. Do jeito que a coisa vai eu fico seriamente com medo que essas reportagens tenham sido o Super Pop bizarro de domingo passado e a matéria gritantemente tendenciosa do Jornal da Record.
  • A realpolitik de Dilma pode não dar certo. Ela sequer obteve o fechamento de posição da bancada religiosa contra a convocação do Palocci e Marco Feliciano, o meu estudo de caso patológico favorito, disse que agora diz respeito a cada um como votar nesse caso. Quer dizer, Dilma agora pode correr o risco de ser duplamente chantageada na mesma matéria, uma espécie de bi-tributação pela frouxeza.
  • Vários petistas mais ferrenhos estão usando o velho argumento da estratégia de longo prazo, de que Dilma está dando um passo atrás para dar dois à frente, que é preciso confiar nela (o Trending Topic #1 do Brasil era #confioemdilma, mas impulsionado por um bocado de gente sacaneando com a própria hashtag) e que ela está consciente da ameaça evangélica e está pensando como lidar com ela. Essa leitura telepática da mente da presidenta é encontrada nesse texto bem típico da justificação a posteriori de militância.
  • Esse texto diz que o jogo político é um jogo de xadrez. Na verdade é um jogo de poker, com blefes e ameaças, em que raramente se chega às cartas na mesa. O governo engoliu o blefe (até porque o Palocci tinha enfraquecido muito suas cartas), mas tinha (e ainda tem) outras munições. O jogo de ameça mútuas sempre tem muito de teatro; a bancada evangélica não ficaria nada confortável em uma oposição radical. O problema é que nessa big picture que os petistas tentam encontrar na estratégia da Dilma, os evangélicos têm pretensões próprias e é isso que pode servir para duvidar da realpolitik do PT. O que o governo não deveria tirar do foco é o fato de que Jesus tem sua própria agenda e pode trocar de lado em 2014. Os evangélicos estão comemorando a genuflexão de Dilma como um golaço. Imagina o efeito disso nas suas bases..
  • Votei em Dilma, falei um bocado a favor e aindo acho que a continuidade do governo de Lula é o melhor projeto político realista para o Brasil no momento. E também achava que ela representava o projeto político mais capacitado para fazer frente às forças retrógradas que pautaram o debate do segundo turno das Eleições de 2010. A gente não espera do nosso candidato só a busca da estabilidade e prosperidade econômica.  Por isso fico puto com o blablablá de que quem critica está fazendo a agenda da imprensa oposicionista. Se é verdade que o governo só tem cinco meses, também é verdade que se trata de um governo de continuidade. Não tem que arrumar a casa, reverter políticas e por isso a desculpa do “não deu tempo para mostrar serviço” não se aplica muito bem a casos como o do Kit Anti-Homofobia ou aos retrocessos no MINC. É claro que não é para se abater, mas eu acho que a entrevista do Haddad ontem mostrou um certo recuo do recuo que pode ter sido motivado pela gritaria da militância. Como eu disse acima, nos TTBr de ontem ficou no topo a hashtag #confioemdilma. Eu tenho esperança no governo dela, fiz a aposta, mas isto não é um cheque em branco. Não tenho cargo de confiança no governo, não me beneficio da mera permanência de um grupo no poder. Não acho que ela deva ser poupada de pressões num momento desses, porque não acredito que nada esteja garantido.
  • Em todo caso, para complicar todo o festival de explicações dos militantes mais ferrenhos Dilma deu essa declaraçaõ horrorosa, que eu preferia que fosse boato, mas não é, e que é próxima demais às coisas que Bolsonaro et caterva costumam dizer para não se sentir incomodado:

Alguns textos sobre a confusão (em um amplo espectro de posições):

Código Florestal e Chapeuzinho Vermelho de Miguel do Rosário

Somos Todos Reféns da Política Partidária? de Amanda Vieira

O Governo Entrega o Ouro de Tsavkko

Dilma Roussef, Palocci e os Omeletes de Rodrigo Vianna

Palocci e as Escolhas de Dilma Rousseff de Rodrigo Vianna


Realpolitik do Senhor


Tenho mais o que fazer, ando ocupado demais para manter o blog em dia, mas dentro da temática que elegi para discutir aqui, não dá para ficar calado diante da péssima notícia do recuo do governo diante da pressão da bancada evangélica no caso da cartilha anti-homofobia (chamada de Kit Gay pela bancada da falta de neurônios). Muita gente vem defendendo o governo dizendo que é preciso ter realismo político e o governo precisava rifar essa discussão para tentar reverter o jogo no caso do Código Florestal e evitar a convocação do Palocci. Não defendo nenhum purismo político, mas todo cálculo de meios e fins só faz sentido se você ainda tiver fins. Há uma tênue linha entre ser uma raposa estrategista e virar um PMDB…

Diante desse fato é interessante notar que na arena da pura estratégia política a bancada religiosa mandou muito melhor do que o governo. É obviamente hipócrita e incoerente que os auto-declarados defensores da moralidade só tenham conseguido essa vitória sobre o governo mediante uma chantagem descarada, a ameaça de convocação de Palocci para depor sobre o seu enriquecimento súbito. Entre diversas opções analisadas pela bancada fundamentalista, segundo o site do inacreditável Marco Feliciano, havia pelo menos uma que representava a única forma razoável e legítima de atuação dessa bancada: a convocação do ministro Haddad para explicações, da mesma forma que a ministra Ana de Hollanda fora convocada para falar sobre as alterações na Lei de Direitos Autorais. Mas, ao invés disso, resolveram usar um assunto sem qualquer relação com o caso e na verdade barganharam “a defesa da família” ofertando em troca a não investigação de um político suspeito. Será que dar pitaco no assunto privado de como as pessoas usam seus órgãos sexuais é moralmente mais relevante do que investigar um potencial caso de corrupção? Será que os eleitores religiosos de boa fé de Marco Feliciano e Garotinho se sentem confortáveis com esse farisaísmo? Ou isso não mostra que todo discurso moralista não passa de uma ótima forma de desviar a atenção da manada de fiéis para longe do que realmente importa em política?

Este é o filme que todos os professores e pastores deviam ver e rever

Muita coisa podia ter sido discutida sobre os vídeos. A bancada do eletroencefalograma linear dizia que o vídeo fazia apologia da homossexualidade, o que, já argumentaram por aí nas internets, ou é algo completamente sem sentido ou algo sem relevância, porque não é um vídeo que vai fazer alguém mudar de orientação sexual. Como disseram, os homossexuais de hoje já são bombardeados por material midiático heterossexual e nem por isso deixaram de ter sua orientação. Os videos do kit anti-homofobia podem até ter alguns problemas. Questionar a qualidade do material tem sido uma estratégia de defesa tosca de alguns militantes. Dizem que Dilma vetou pessoalmente o Kit por não ter gostado dos filmes, o que seria a pior das defesas, pois ela estaria assim desautorizando o MEC, passando um atestado de incompetência de seus funcionários e mostrando estar incapacitada de delegar poderes.  Mas não sei. Não vi todos, achei um meio chatinho, mas o outro era legal. Particularmente, eu até acho que precisava era de um tratamento de choque mais forte. Como diria um amigo meu, um país que tem um Bolsonaro devia passar Priscila a Rainha do Deserto todos os dias na escola. E também acho que não precisa fazer nenhum filme para Kit Anti-Homofobia quando já se tem algumas pérolas como Meninos Não Choram e Minha Vida em Cor-de-Rosa. Mas o que aconteceu é que todo o debate interessante que podia acontecer sobre a melhor maneira de chegar ao objetivo (que devia ser incontroverso!) de combate ao bullying e de defesa dos direitos humanos foi eliminado pela histeria religiosa e pelo uso da tática da chantagem. O que era para ser uma discussão técnica do MEC e que, vá lá, podia até passar pela Comissão de Educação da Câmara, voltou à estaca zero. É por isso que a bancada religiosa não tem legitimidade para entrar nessa discussão: não apresentou um caminho melhor, não concordou nos objetivos, não reconheceu a existência do problema e só fez vetar a solução que tinha sido mais discutida. A posição religiosa radical não tem o direito de se apresentar como mais uma voz no debate porque a sua posição é a da eliminação do debate, as suas soluções são não soluções, como já ficou claro no caso da AIDS.

Para piorar, o governo ainda dá um passo para trás além do supostamente necessário quando o ministro Gilberto Carvalho declarou à reportagem do Globo que “qualquer outro material, daqui para frente, editado pelo governo sobre a questão de costumes passará pelo crivo amplo da sociedade e das bancadas interessadas”. Não só é terrível, como disse a Cynthia Semíramis, ver o assunto ser tratado como uma mera questão de “costumes” e não de direitos humanos, mas também ver o governo renunciar ao seu papel de transformador da sociedade para se transformar em um mero repetidor dos preconceitos já existentes. Uma lição da discussão do STF sobre a união estável de casal homoafetivo foi que direitos constitucionais e direitos humanos têm em seu caráter inegocíavel, uma função contra-majoritária. O papel das garantias constitucionais elementares é frear o poder potencialmente opressor das maiorias. A tática de Marina Silva nas eleições para disfarçar suas posições religiosas sobre diversos temas era dizer que eles deveriam ser tratados em plebiscitos, sabendo que, como no caso das armas, a maioria é conservadora e seria praticamente impossível qualquer mudança da legislação em pontos como a união homoafetiva ou a flexibilização da legislação criminal no casos das drogas e do aborto. Houve alguns avanços, como na decisão do STF sobre união homoafetiva, mas o meu Iluminismo não é hegeliano: não confio que a Razão irá triunfar sozinha sem uma boa briga. Talvez esses avanços precisem esperar por uma transformação na base da sociedade, uma mudança na consciência das pessoas, mas como esperar que isso aconteça se nós, os defensores da Razão, estamos concedendo aos adversários justamente o poder sobre as escolas?


Discurso de ódio em uma concessão pública


Esse vídeo, pelo que parece, já está sendo denunciado há algum tempo nas internets, mas só vim tomar conhecimento dele hoje através da minha querida amiga lá do Sertão, Laynara. Chequem com seus próprios ouvidos os absurdos abaixo:

Antes de começar o seu festival de charlatanismo, prometendo milagres para pessoas crédulas provavelmente desesperadas, o autodenominado “Profeta da Nação” diz que a pessoa que não acredita em Deus é perigosa, que ela “mata, rouba e destrói”. Ninguém é obrigado a fazer mais sinapses que as necessárias para manter as funções vitais básicas, mas começa a ficar problemático quando uma pessoa quer tentar transmitir para as outras esse seu princípio para a economia de neurônios. Piora quando faz isso para explorar a ignorância e a ingenuidade das pessoas…

O engraçado é que todo começo de ano, na temporada de Big Brother, aparece um debate sobre o papel das concessões públicas, o papel educativo da televisão ou sobre as supostas imoralidades apresentadas no programa. Mas por quê ninguém discute publicamente o uso de uma concessão de bem público para promover um discurso de ódio e propagar essa falsa promessa de curas espirituais? Enquanto o Big Brother ficou sob vigilância do Ministério Público Federal, não ouvi até agora manifestação sobre o uso de uma concessão pública para a prática desse crime de difamação e injúria. Enquanto que o máximo de estrago que o Big Brother pode fazer a alguém é lhe causar um ataque de misantropia, um programa como o do Profeta da Nação pode fazer uma pessoa doente deixar de procurar um tratamento realmente efetivo e arriscar a sua vida esperando esses milagres. Pastores charlatães como ele e estes, que vendem garrafinhas de água benta por até mil reais, é que estão de certa forma roubando, arriscando matar e destruindo a vida de pessoas ingênuas*.

O site Ateus do Brasil já fez um rápido apanhado das leis penais que esse tipo de declaração viola.** Ao meu ver o caso vai mais além: caberia pedido de direito de resposta, como foi concedido no caso Datena, e, o que seria mais divertido, algum pedido de compensação pecuniária. Mas bom mesmo era aproveitar essa vontade de discutir o papel social das televisões, que só aparece em tempo de BBB ou de beijo gay em novelas, e tratar desses casos também. Será que concessões públicas, que exploram comercialmente um bem comum escasso (uma faixa limitada de frequências no espectro eletromagnético) podem privilegiar o discurso de uma ou outra religião? Por que não só ateus, mas também judeus, muçulmanos e umbandistas precisam ter suas opções de programação limitadas se não quiserem aguentar a lavagem cerebral cristã? Por quê ao lado da Santa Missa no Seu Lar a Rede Globo não é obrigada a veicular também um Candomblé no Seu Lar? Se alguém pensar bem sobre isso vai ver que a resposta liberal de que as TVs somente respondem ao mercado maior de telespectadores das religiões predominantes só arrisca criar uma bola de neve de reforço dessas religiões e de supressão da diversidade. Mas, por outro lado, dar espaço para todo mundo seria inviável. Donde se segue que provavelmente o melhor seria deixar a religião fora da TV. Em todo caso, se uma TV sem telenvagelistas é uma utopia, para casos mais extremos como o desse Profeta há uma solução mais concreta já testada: uma ação pública contra a emissora, pedindo a suspensão liminar do programa, o pagamento de danos morais coletivos e a cassação da concessão da Rede TV, como o Ministério Público Federal já fez uma vez contra ela própria. O negócio é encaminhar os protestos para o Ministério Público e torcer para que ONGs como a ATEA, a UNA ou a Liga Secular Humanista façam o papel que as ONGs LGBTT tiveram nessa outra ação do MP.



* Quando falo na ignorância e ingenuidade dos fiéis desses charlatães, já começo a escutar a voz de alguns relativistas. Um problema interessante de bioética é o da autonomia para recusar um tratamento. A aceitação disso como um princípio é o senso comum, mas ainda se coloca uma questão filosófica interessante que é a de saber se, em alguns casos, a pessoa está sendo realmente livre e autônoma quando decide irracionalmente ou, pior ainda, fechando os olhos para as evidências. Talvez dê para tirar uma discussão interessante daí a partir do debate entre Clifford e James. (Nota da nota: o caso das Testemunhas de Jeová é um ótimo exemplo de que na Aposta de Pascal o custo da aposta não é zero e o prejuízo na derrota é alto…)

** Interessante notar que a primeira lei citada, a da discriminação, só protege contra a discriminação por religião, deixando o ateu de fora. É uma situação mais desamparada que a da comunidade LGBTT que ainda tem pelo menos um projeto de lei a seu favor sendo discutido. Mas a base constitucional dessa lei protege a liberdade de crença e não só de crença religiosa. Por isso, os constitucionalistas entendem que esse dispositivo também protege o ateu: “(…) a liberdade de crença (…) também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma (…)” (José Afonso da Silva) e “(…)o descrente também tem liberdade de consciência e pode pedir que se tutele juridicamente tal direito (…)” (Pontes de Miranda). Catei essas citações do pedido de abertura de inquérito do MP contra a Band por causa do Datena. Lá tem mais detalhes.


Respondendo a homofobisteria dos pastores


Melhor coleção de reduções ao ridículo dos argumentos religiosos contra o casamento gay…


Liberdade de Religião ou de Preconceito?


O ungido deputado Marco Feliciano tuitou ontem um protesto contra a prisão de um pregador homofóbico na Inglaterra:

É o discurso combinado de sempre da tropa de choque evangélica: o de que a criminalização da homofobia atenta contra a liberdade de religião e de expressão, como se esta fosse uma autorização para sair pregando preconceitos e incitando atitudes de ódio. É o mesmo mimimi que a gente vê em vários lugares da internet, inclusive nos textos de um Senador, que comete o delicioso ato falho, no título de um dos textos, de confessar que quer manter o seu direito ao preconceito.

É um argumento tosco e não pretendo entrar nos detalhes óbvios da idéia de que a liberdade de religião deveria ser uma garantia da diversidade e não uma licença para cada grupo se entricheirar em seus absolutismo contra os outros grupos. Nem preciso dissertar sobre a idéia de que a garantia mais importante dessa liberdade é o Estado Laico, a separação entre a esfera dos assuntos públicos e uma esfera de assuntos privados à qual deve ser relegada as opiniões religiosas, inerentemente incompatíveis com um debate público. Nem vou perder meu tempo ressaltando que em português a expressão “liberdade da religião” esconde uma interessante ambiguidade que em inglês é evitada pela diferença entre “freedom of religion”, a liberdade de seguir uma religião, e “freedom from religion“, a liberdade de não seguir uma religiao, que a proteção constitucional abrange essas duas dimensões e que, de certa forma, esta é mais básica do que aquela. A melhor resposta ao ridículo dessa tática é esse cartoon:

Pastor: "Eu nao gosto do seu tipo. Por que? Apenas um livrinho chamado A BÍBLIA! Você é do mal! Deus te odeia! Eu te odeio! Você não merece direitos!" O carinha de cor-de-rosa: "Pára com isso!" Pastor: "Oh, meu Deus! Eu sou vítima de opressão!" (clique para a fonte)


Epic Fail do Marco Feliciano


Eu sempre sustentei uma teoria (inspirada pela leitura de algumas provas de alunos) de que existem duas formas de erro: o erro passivo, uma privação, o erro no sentido da Quarta Meditação lá de Descartes, que é aquele no qual a mente deixa de acertar, que surge quando a pessoa não pensou muito antes de falar ou não sabe muito sobre o assunto; mas tem também um erro ativo, um erro que exige um esforço real para ser cometido, que ninguém comete por desleixo. Volta e meia tem aluno que inventa umas teorias tão malucas que só podem ser atribuídas a um esforço desse tipo. Pois bem, ando achando que algumas teses religiosas estão quase por aí: exigem um esforço contínuo para que se continue acreditando naquilo. Bem, nada que muitos fiéis não concordem. Já me falaram que a fé exige um esforço, é o resultado de uma busca ativa blá blá blá, o que só me sugere a palavra “auto-hipnose”. Mas em todo caso, o esforço de auto-ilusão explica que em alguns momentos as pessoas relaxem e acabem acertando sem querer! Foi o que aconteceu nesse vídeo com o Marco Feliciano, o ungido representante na Câmara dos Deputados de 211.855 eleitores que não aprenderam muito bem que religião não devia se meter com política. Reparem de que maneira, lá por volta de 1:20, ele argumenta contra a preocupação de que haverá proselitismo no ensino de religião:

Ele diz: “Se é ensinado nas escolas, de maneira científica, que o homem veio do macaco [siiiiiiiic!!], por quê não ensinar para as nossas crianças a outra história? Que o homem veio de Adão e Eva e de Deus. Porque, na língua portuguesa, se ensina factos fictícios! Nós estudamos histórias criadas e inventadas por homens. Shakespeare não é estudado na escola? (…) Se é apresentado, por quê não apresentar a maneira linda do criacionismo?

É isso mesmo, pastor! A luz da Razão o iluminou por um segundinho! Se já se ensina tantos factos fictícios, porque não ensinar mais um? Por quê não colocar a Bíblia na aula de literatura mundial, junto da Odisséia e do Épico de Gilgamesh? A qualidade literária não é das melhores — o autor do Gênesis narra uma história da Criação bem diferente poucas páginas depois de ter apresentado a primeira, não explica de onde brotaram todas as mulheres necessárias para a procriação dos filhos de Adão etc — mas tem uns bons momentos de fúria, sexo e safadeza, como outras boa obras literárias. Então, finalmente chegamos a um acordo!  Aula de religião = aula de literatura!


P.S.: Que argumentinho vagabundo foi esse contra o Estado laico? No julgamento da união homoafetiva no STF também usaram um nessa linha. No vídeo o pastor diz “(…) os juristas, os intelectuais vêm dizer que o país é laico. Laico onde? Me diga: Se qualquer de nós pegar uma nota de dinheiro agora vai encontrar lá a frase ‘Deus seja louvado’. Se Deus pode ser louvado na economia do país, por que não nas escolas?” Depois veio falar dos crucifixos nas casas legislativas e no STF.. Ora, pastor, se realmente há uma inconsistência, são esses símbolos que têm que dançar! Tá errado! Como um dos ministros do STF falou no julgamento de ontem, o Estado Laico é o fundamento da liberdade de religião, já que no dia em que o Estado assumir uma das religiões, todas as demais ficam ameaçadas. (isso é elementar, mas para algumas pessoas é preciso desenhar)


O oxigênio é uma dádiva divina?


Como alega o tosco pastor Marco Feliciano nesse tweet?

Não, pastor, o oxigênio é uma dádiva das cianobactérias! Vamos louvá-las?

Cianobactérias via Wikipédia

É a elas que realmente devemos o nosso oxigênio! Louvemos as bactérias!