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O Argumento Cosmológico Recauchutado


O carro chefe inquestionável do maior apologeta cristão de hoje em dia, William Lane Craig, é uma versão requentada por ele do Argumento Cosmológico para a existência de Deus. Esse argumento, cujo proponente mais famoso foi São Tomás de Aquino e que já estava esboçado na Metafísica de Aristóteles, está na boca do povo na forma da questão “se o Universo tem um começo, quem criou o Universo?”. Todo crente tem uma vaga noção desse argumento, então vamos ensinar aqui o básico de como ele funciona, antes de começar a desmontá-lo…iObs

A versão requentada de Craig tem o nome de Argumento Cosmológico Kalam, pois se inspira em alguns sub-argumentos utilizados por alguns filósofos muçulmanos da Idade Média, pertencentes a uma tradição teológica com esse nome. A novidade desses sub-argumentos, destinados a provar que o Universo teve um início e, portanto, é contingente e precisa ter sido criado, era o emprego de alguns paradoxos matemáticos com o infinito, principalmente uma conhecida propriedade de conjuntos infinitos: a possibilidade de colocar seus elementos em uma relação um para um com os elementos de um subconjunto e é por isso que existem tantos números pares quanto números naturais, mesmo sendo o conjunto daqueles somente uma parte do conjunto destes. Al Ghazali usou essa propriedade para argumentar que se o Universo não tivesse tido um começo e o tempo passado, por consequência, fosse infinito, chegaríamos à conclusão de que, embora a órbita de Júpiter seja completada em menos do que a metade do tempo que Saturno leva para completar a sua órbita, ambos os planetas teriam completado o mesmo número de voltas em torno do Sol, o que seria paradoxal. [Obs. pra mim: isso torna esse argumento mais forte do que o da impossibilidade do regresso ao infinito, respondido por Tomás no De Eternitate Mundi]

Apesar desse monumento aristotélico em Triunfo - PE, ninguém reza para o Motor Imóvel

Com a tese da não eternidade do mundo em mãos, o proponente do argumento pode juntar a afirmação de que tudo o que começa a existir tem uma causa e extrair a conclusão de que o Universo tem uma causa. Essa é a base da prova. Depois o cabra tem que ralar mais um pouquinho para mostrar que essa causa primeira é algo parecido com o Deus da religião, já que ninguém reza para o Motor Imóvel…

Bem, quem estiver interessado em conhecer uma versão fast-food da prova completa, incluindo essa parte em que se demonstra que a causa primeira é um Deus pessoal, transcendente etc. pode ver os dois primeiros vídeos do debate de Craig com o filósofo ateu Austin Dacey. O maior prejuízo da exposição mais rápida é a troca do argumento da impossibilidade de um infinito atual para a finitude do passado pelo recurso à teoria do Big Bang, como argumento para a tese de que o Universo teve um início. É uma má jogada, como mostra Dacey na sua objeção.

Seguindo a sugestão do Luke do Common Sense Atheism, também resolvi fazer um mapa do argumento usado por Craig no debate, acrescentando o sub-argumento para a finitude do passado. O bom desse mapa é dar a noção da complexidade da coisa toda e também fornecer um guia para as críticas. Já existem vários softwares para fazer esse tipo de mapa de argumentos, inclusive com espaço para as objeções, mas não tive muito tempo ainda de instalar e testar um deles. Por isso, fiz no Inkscape mesmo. Cliquem para ampliar.

Mapa do Argumento Cosmológico Kalam completo