Bernstein: o melhor dos mundos possíveis!


Como eu sei que pouca gente vai clicar no link colocado no post sobre o Problema do Mal, aqui fica um post com o vídeo direto da maravilhosa adaptação para a Broadway por Bernstein do clássico de Voltaire, Cândido. O melhor é que a sacaneada que Voltaire faz com o otimismo de Leibniz ainda soa bem atual quando a gente vê os teístas tentando contornar o problema do Mal e provar que tudo tem uma razão no plano divino. Não tem legenda, mas vou colocar a tradução lá embaixo. Cliquem no “read more”.

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E a ciência atropela a teologia de novo…


O argumento cosmológico para a existência de Deus, aquele que diz que o Universo tem que ter tido um início e uma causa, é uma das principais armas de Craig e outros apologetas em debates, tanto que Craig dedicou doislivros inteiros a ele. Uma premissa vital do argumento, a mais discutida e aquela sobre a qual a maioria dos esforços dos filósofos cristãos se concentra é a que afirma que a existência do Universo teve um começo. E enquanto Craig está lá se contorcendo para usar o Big Bang como prova desse começo absoluto ou tentando arrumar um argumento a priori, a ciência, que está cuidando da sua vida, chega com essa hipótese fantástica e arrasadora: alguns buracos-negros podem ser mais velhos que o Big Bang!!! E isso é muito mais bonito, grandioso e instigante que a hipótese de que o Universo começou ali, apenas 14 bilhões de anos atrás, por vontade de um Ser que ficou entediado com a eternidade…

Anel de buracos-negros resultante de choque de galáxias! A ciência é muito mais fascinante! Cliqem na imagem para ver a história completa. Ah, a propósito, nessa escala aí, todo nosso sistema solar não é maior do que um pixel dessa foto...


Plantinga e o Problema do Mal – I


Uma das minhas leituras de ônibus (bastante tempo disponível graças ao trânsito desgraçado de Recife) recentes tem sido o livro de Plantinga God, Freedom, and EvilLivro de Plantinga sobre o Problema do Mal e a defesa pelo livre-arbítrio um clássico contemporâneo sobre o Problema do Mal (“Se Deus é bom e onipotente, então por que o Mal existe?”), que fornece ótimos exemplos da utilização do novo instrumental da lógica modal mencionada no post inaugural. A idéia geral da resposta de Plantinga à objeção ateísta é simples. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a onipotência divina limita-se, segundo a maioria dos teólogos, àquilo que é logicamente possível, de modo que Deus não pode criar um círculo quadrado ou, de modo menos óbvio, criar ou fazer algo que implique uma negação de Sua própria essência, já que ela é necessária. Com isso em mente, Plantinga mostra certas situações em que é na prática impossível evitar que algum mal aconteça. Basta pensar em casos clássicos de decisão médica ou de algum resgate: por exemplo, dois alpinistas que são pegos por uma nevasca em pontos distintos de uma montanha e a equipe de resgate não pode se dividir entre os dois, de modo que só um deles será salvo a tempo. Ou então exemplos médicos, como só ter uma ampola de morfina e duas ou mais pessoas padecendo de dor excruciante. O ponto de Plantinga é que diante de uma situação dessas, você não pode ser condenado por não ter suprimido todo mal de que tinha conhecimento, visto que isso era impossível. A idéia de sua defesa contra o Problema do Mal via livre-arbítrio é mostrar a possibilidade de que o mesmo aconteça no caso de Deus: haveria mundos possíveis que Deus não poderia atualizar, ou pelo menos, estados de coisa incompatíveis entre si, de modo que Deus não poderia realizar todos os bens imagináveis e ficaria assim justificada a tese de Leibniz de que Ele teve que escolher o menos pior dos mundos possíveis.

Cena típica do melhor dos mundos possíveis (Fonte)

E Plantinga pretende se satisfazer somente com a possibilidade de uma explicação: como a objeção ateísta argumenta que as propriedades divinas são inconsistentes com a existência do Mal no mundo, exibir uma situação possível em que Deus mantenha suas propriedades e não possa eliminar o Mal mostraria que não existe essa contradição. Isso não o compromete, com ele mesmo salienta, com uma teodicéia, que seria uma teoria sobre as razões divinas para permitir a existência do Mal no mundo, e por isso é chamado de somente uma defesa.

Mundos possíveis que Deus não pode atualizar

Para mostrar que poderiam existir situações possíveis (com redundância mesmo) que Deus não pode atualizar, Plantinga fornece uma série de exemplos com uma estrutura comum: em uma determinada situação, alguém deve tomar uma decisão e essa decisão impede que outra possibilidade seja atualizável. Na verdade, já estou prestando um grande serviço à coerência e à inteligibilidade de Plantinga em apresentar a idéia assim, porque ele só diz uma frase que esclarece um dos nós do argumento depois de dar os exemplos. A idéia, em tese, é mostrar que, dada uma situação em que cabe a um sujeito Paul fazer uma escolha livre, “há um número de mundos possíveis tais que depende parcialmente de Paul se Deus pode ou não criá-los” (p.42). A idéia de que nossas decisões restringem o campo das possibilidades é bonita, é bastante cara a mim, e é bem utilizada na discussão sobre a lógica do tempo; basta pensar em uma situação em que as alternativas de uma escolha nunca mais estarão presentes, como, por exemplo, aquela possibilidade de pedir alguém em casamento que, se não foi tomada na hora certa, deixou de existir depois. O problema é que um bocado de pressupostos metafísicos e lógicos de Plantinga fazem com que ele formalize essa idéia de maneira bem menos interessante e que vai dar uma série de problemas no argumento depois. (Não sei se o povo percebe, mas tem um botão de “Leia mais” aí embaixo..)

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Respondendo a homofobisteria dos pastores


Melhor coleção de reduções ao ridículo dos argumentos religiosos contra o casamento gay…


Liberdade de Religião ou de Preconceito?


O ungido deputado Marco Feliciano tuitou ontem um protesto contra a prisão de um pregador homofóbico na Inglaterra:

É o discurso combinado de sempre da tropa de choque evangélica: o de que a criminalização da homofobia atenta contra a liberdade de religião e de expressão, como se esta fosse uma autorização para sair pregando preconceitos e incitando atitudes de ódio. É o mesmo mimimi que a gente vê em vários lugares da internet, inclusive nos textos de um Senador, que comete o delicioso ato falho, no título de um dos textos, de confessar que quer manter o seu direito ao preconceito.

É um argumento tosco e não pretendo entrar nos detalhes óbvios da idéia de que a liberdade de religião deveria ser uma garantia da diversidade e não uma licença para cada grupo se entricheirar em seus absolutismo contra os outros grupos. Nem preciso dissertar sobre a idéia de que a garantia mais importante dessa liberdade é o Estado Laico, a separação entre a esfera dos assuntos públicos e uma esfera de assuntos privados à qual deve ser relegada as opiniões religiosas, inerentemente incompatíveis com um debate público. Nem vou perder meu tempo ressaltando que em português a expressão “liberdade da religião” esconde uma interessante ambiguidade que em inglês é evitada pela diferença entre “freedom of religion”, a liberdade de seguir uma religião, e “freedom from religion“, a liberdade de não seguir uma religiao, que a proteção constitucional abrange essas duas dimensões e que, de certa forma, esta é mais básica do que aquela. A melhor resposta ao ridículo dessa tática é esse cartoon:

Pastor: "Eu nao gosto do seu tipo. Por que? Apenas um livrinho chamado A BÍBLIA! Você é do mal! Deus te odeia! Eu te odeio! Você não merece direitos!" O carinha de cor-de-rosa: "Pára com isso!" Pastor: "Oh, meu Deus! Eu sou vítima de opressão!" (clique para a fonte)


Epic Fail do Marco Feliciano


Eu sempre sustentei uma teoria (inspirada pela leitura de algumas provas de alunos) de que existem duas formas de erro: o erro passivo, uma privação, o erro no sentido da Quarta Meditação lá de Descartes, que é aquele no qual a mente deixa de acertar, que surge quando a pessoa não pensou muito antes de falar ou não sabe muito sobre o assunto; mas tem também um erro ativo, um erro que exige um esforço real para ser cometido, que ninguém comete por desleixo. Volta e meia tem aluno que inventa umas teorias tão malucas que só podem ser atribuídas a um esforço desse tipo. Pois bem, ando achando que algumas teses religiosas estão quase por aí: exigem um esforço contínuo para que se continue acreditando naquilo. Bem, nada que muitos fiéis não concordem. Já me falaram que a fé exige um esforço, é o resultado de uma busca ativa blá blá blá, o que só me sugere a palavra “auto-hipnose”. Mas em todo caso, o esforço de auto-ilusão explica que em alguns momentos as pessoas relaxem e acabem acertando sem querer! Foi o que aconteceu nesse vídeo com o Marco Feliciano, o ungido representante na Câmara dos Deputados de 211.855 eleitores que não aprenderam muito bem que religião não devia se meter com política. Reparem de que maneira, lá por volta de 1:20, ele argumenta contra a preocupação de que haverá proselitismo no ensino de religião:

Ele diz: “Se é ensinado nas escolas, de maneira científica, que o homem veio do macaco [siiiiiiiic!!], por quê não ensinar para as nossas crianças a outra história? Que o homem veio de Adão e Eva e de Deus. Porque, na língua portuguesa, se ensina factos fictícios! Nós estudamos histórias criadas e inventadas por homens. Shakespeare não é estudado na escola? (…) Se é apresentado, por quê não apresentar a maneira linda do criacionismo?

É isso mesmo, pastor! A luz da Razão o iluminou por um segundinho! Se já se ensina tantos factos fictícios, porque não ensinar mais um? Por quê não colocar a Bíblia na aula de literatura mundial, junto da Odisséia e do Épico de Gilgamesh? A qualidade literária não é das melhores — o autor do Gênesis narra uma história da Criação bem diferente poucas páginas depois de ter apresentado a primeira, não explica de onde brotaram todas as mulheres necessárias para a procriação dos filhos de Adão etc — mas tem uns bons momentos de fúria, sexo e safadeza, como outras boa obras literárias. Então, finalmente chegamos a um acordo!  Aula de religião = aula de literatura!


P.S.: Que argumentinho vagabundo foi esse contra o Estado laico? No julgamento da união homoafetiva no STF também usaram um nessa linha. No vídeo o pastor diz “(…) os juristas, os intelectuais vêm dizer que o país é laico. Laico onde? Me diga: Se qualquer de nós pegar uma nota de dinheiro agora vai encontrar lá a frase ‘Deus seja louvado’. Se Deus pode ser louvado na economia do país, por que não nas escolas?” Depois veio falar dos crucifixos nas casas legislativas e no STF.. Ora, pastor, se realmente há uma inconsistência, são esses símbolos que têm que dançar! Tá errado! Como um dos ministros do STF falou no julgamento de ontem, o Estado Laico é o fundamento da liberdade de religião, já que no dia em que o Estado assumir uma das religiões, todas as demais ficam ameaçadas. (isso é elementar, mas para algumas pessoas é preciso desenhar)


Viva o Estado Laico!


O STF aceitou por 10×0 o pedido de reconhecimento da união estável homoafetiva. Acho que todos os ministros perceberam que o momento era histórico e prepararam votos fantásticos, mostrando para os que, na falta de argumentos, preferem diminuir a

Igreja prum lado, o Estado pro outro, é como deve ser..

importância da discussão (como naquele argumento “ah, mas já ganharam tantos direitos na justiça comum, é algo tão garantido, não precisa do STF..”), que a discussão transcende o interesse daqueles que podem ser beneficiar diretamente da decisão: no contexto dos votos, os juízes ensinaram/lembraram, em direta oposição ao juspositivismo tático covarde dos amici curiae contrários ao reconhecimento,  que o Judiciário não existe só para a aplicação da letra fria da lei, mas também para forçar o avanço de uma sociedade estagnada (como falou o Celso de Mello) e para proteger os direitos elementares das minorias diante dos preconceitos de uma maioria; também argumentaram a favor da idéia de que o Direito à Felicidade já está implícito na Constituição, mas o mais importante: deram um chega-pra-lá em todo o discurso religioso conservador, na pretensão religiosa de legislar sobre a vida alheia, mesmo a de quem não compartilha de um certo credo. Não é preciso ser homossexual para comemorar um belo reconhecimento dos limites do Estado e da força dos direitos fundamentais, celebrar a proteção à liberdade privada individual e respirar um pouco aliviado (por enquanto.. sem baixar a guarda) com a derrota dos defensores do obscurantismo.

O voto de Celso de Mello, dos que eu acompanhei por completo, foi um dos mais explícitos e incisivos. Estou à espera de sua publicação para pinçar alguns trechos para cá. Mas dentre as frases que me lembro, uma ia na jugular do problema das pretensões das representações religiosas nesse tema: “Não há nenhum interesse legítimo que justifique a oposição ao reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo“. Porque no fundo o problema é como o Túlio Viana falou:

Mas, em resposta ao pastor Feliciano e outros de sua estirpe, restou essa inevitável constatação:


Hey, preachers, leave the kids alone!


Claro que doutrinação infantil não surgiu agora e sem ela a religião dementificante jamais teria chegado onde chegou. Dawkins costuma falar que o ensino religioso para crianças é uma forma de abuso infantil.

Esses gansos tiveram imprinting no piloto do ultraleve e agora o seguem pra todo lado

A mente de uma criança é muito mais vulnerável e a religião aproveita-se dessa vulnerabilidade para criar um imprintingde suas idéias na mente da criança, que fica marcada por elas da mesma maneira que os patinhos aprendem a seguir pelo resto da vida o primeiro animal que vê pela frente. (Uma vez minha mãe me levou para uma escola dominical esquisita, um único dia porque eu achei aquilo horrível, mas até hoje eu me lembro da musiquinha que cantavam lá, embora eu ainda desconfie que é mais porque a música era horrorosa, sem métrica, sem ritmo…uma experiência estética assustadora..)

Por isso é de ficar assustado quando se vê toda a discussão a respeito do ensino religioso nas escolas públicas, propostas de obrigatoriedade ou aberrações abomináveis como o fato de sua regulamentação no estado do Rio de Janeiro exigir professores certificados por uma autoridade religiosa! (Cf. art 2º, II. Lei esta obviamente proposta pelo casal de intelectuais Anthony e Rosinha Garotinho).

Mas isso é assunto para outro post, quando eu tiver mais tempo. Por ora fico só com essa proposta aparentemente tão bonitinha, inocente, acobertada por um nome de professorinha:

Pois é, Tia Jane, já imaginei sim. Na verdade não só imaginei como eu sei no que é que pode dar. Pode dar nisso:


O oxigênio é uma dádiva divina?


Como alega o tosco pastor Marco Feliciano nesse tweet?

Não, pastor, o oxigênio é uma dádiva das cianobactérias! Vamos louvá-las?

Cianobactérias via Wikipédia

É a elas que realmente devemos o nosso oxigênio! Louvemos as bactérias!


O ateísmo é uma religião?


Só se “careca” for uma cor de cabelo…

Mas o panfleto esta vazio! - Eh que nos somos ateus

Ausencia de um credo no sobrenatural nao e um novo credo

Via Afternoon Snooze Button