Manifesto

Esse blog surge de duas motivações. A primeira, interna à disciplina da Filosofia, surge da constatação de que, pela maior parte da História da Filosofia, a questões mais fundamentais da Metafísica estiveram enroscadas com as questões da Fé e a busca por uma fundamentação última confundiu-se com a busca de uma base racional para o Dogma. Deus, na ótima metáfora de Wolfgang Röd (Der Gott der reinen Vernunft), era como a pedra de fecho da cúpula da Metafísica Clássica pré-crítica: era a peça que sustenta todo o edifício e que, ao mesmo tempo, era sustentada pelo edifício. Não dá para se interessar por metafísica clássica sem passar por diversos temas ligados à Filosofia da Religião. E, nos últimos cinquenta anos, com o enfraquecimento do positivismo e o ressurgimento de diversos temas da metafísica tradicional, houve um processo que Quentin Smith chama de dessecularização da academia e os temas tradicionais da Teologia Racional voltaram ao debate. Continuo achando, como bom kantiano, que, no fundo, essa nova Metafísica dogmática tem bases tão infundadas quanto a antiga, mas os novos argumentos são muito mais sofisticados e merecem muito mais discussão. O esforço crítico kantiano precisa ser totalmente refeito e este blog é meu bloco de notas para pensar sobre isso.

Mas há uma outra motivação para discutir esses assuntos, uma motivação que eu confesso ser mais forte porquanto mais pessoal: uma motivação política e contra-apologética. A Religião teria somente esse limitado interesse como caso clínico para uma filosofia terapêutica se ela realmente se limitasse ao âmbito que ela diz ter quando evoca a liberdade constitucional de crença e quando foge das cobranças da racionalidade evocando uma experiência pessoal alheia às demandas da razão. Porém a Religião não é neutra, inócua, uma mera opinião pessoal sem maiores consequências. A Religião tem ganho enorme espaço no debate público, mesmo renunciando às ferramentas que permitem esse debate, como o apelo à razão e a evidências públicas. Ou melhor, tem ganho espaço justamente na medida em que rejeita essas ferramentas e consegue mobilizar, através do apelo à irracionalidade, o apoio das massas. Não preciso dissertar sobre os riscos de uma sociedade na qual o debate racional perde espaço. Assim, sob o aspecto político, a proposta é uma proposta negativa – fazer a crítica das fundamentações rasteiras da fé e de sua influência na sociedade – mas também tem um lado positivo, construtivo: ao discutir os argumentos mais sofisticados e sérios dos religiosos, estendemos a mão àqueles que ainda respeitam o debate racional das idéias e ficamos na torcida para que eles voltem a ser a maioria.

O Autor

Eu, Leonardo Cisneiros, sou professor de filosofia da Universidade Federal Rural de Pernambuco, nas áreas de Filosofia da Ciência e Bioética e tenho interesses de pesquisa também em Filosofia da Linguagem, Lógica e Metafísica. Estudei em um colégio maravilhoso, o finado Marista do centro do Recife, no qual um ex-monge ensinava Nietzsche, Marx e Freud na aula de religião e vai ver que é por isso que sou assim…


2 respostas para “Manifesto

  • Sérgio Farias

    “Estudei em um colégio maravilhoso, o finado Marista do centro do Recife”:
    quanta nostalgia hein! HAHAH

    • Leonardo Cisneiros

      ahahhahahaha :-$ Pô.. é claro, né? Ainda mais porque era um colégio com essas aulas de religião e filosofia malucas..

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