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Discurso de ódio em uma concessão pública


Esse vídeo, pelo que parece, já está sendo denunciado há algum tempo nas internets, mas só vim tomar conhecimento dele hoje através da minha querida amiga lá do Sertão, Laynara. Chequem com seus próprios ouvidos os absurdos abaixo:

Antes de começar o seu festival de charlatanismo, prometendo milagres para pessoas crédulas provavelmente desesperadas, o autodenominado “Profeta da Nação” diz que a pessoa que não acredita em Deus é perigosa, que ela “mata, rouba e destrói”. Ninguém é obrigado a fazer mais sinapses que as necessárias para manter as funções vitais básicas, mas começa a ficar problemático quando uma pessoa quer tentar transmitir para as outras esse seu princípio para a economia de neurônios. Piora quando faz isso para explorar a ignorância e a ingenuidade das pessoas…

O engraçado é que todo começo de ano, na temporada de Big Brother, aparece um debate sobre o papel das concessões públicas, o papel educativo da televisão ou sobre as supostas imoralidades apresentadas no programa. Mas por quê ninguém discute publicamente o uso de uma concessão de bem público para promover um discurso de ódio e propagar essa falsa promessa de curas espirituais? Enquanto o Big Brother ficou sob vigilância do Ministério Público Federal, não ouvi até agora manifestação sobre o uso de uma concessão pública para a prática desse crime de difamação e injúria. Enquanto que o máximo de estrago que o Big Brother pode fazer a alguém é lhe causar um ataque de misantropia, um programa como o do Profeta da Nação pode fazer uma pessoa doente deixar de procurar um tratamento realmente efetivo e arriscar a sua vida esperando esses milagres. Pastores charlatães como ele e estes, que vendem garrafinhas de água benta por até mil reais, é que estão de certa forma roubando, arriscando matar e destruindo a vida de pessoas ingênuas*.

O site Ateus do Brasil já fez um rápido apanhado das leis penais que esse tipo de declaração viola.** Ao meu ver o caso vai mais além: caberia pedido de direito de resposta, como foi concedido no caso Datena, e, o que seria mais divertido, algum pedido de compensação pecuniária. Mas bom mesmo era aproveitar essa vontade de discutir o papel social das televisões, que só aparece em tempo de BBB ou de beijo gay em novelas, e tratar desses casos também. Será que concessões públicas, que exploram comercialmente um bem comum escasso (uma faixa limitada de frequências no espectro eletromagnético) podem privilegiar o discurso de uma ou outra religião? Por que não só ateus, mas também judeus, muçulmanos e umbandistas precisam ter suas opções de programação limitadas se não quiserem aguentar a lavagem cerebral cristã? Por quê ao lado da Santa Missa no Seu Lar a Rede Globo não é obrigada a veicular também um Candomblé no Seu Lar? Se alguém pensar bem sobre isso vai ver que a resposta liberal de que as TVs somente respondem ao mercado maior de telespectadores das religiões predominantes só arrisca criar uma bola de neve de reforço dessas religiões e de supressão da diversidade. Mas, por outro lado, dar espaço para todo mundo seria inviável. Donde se segue que provavelmente o melhor seria deixar a religião fora da TV. Em todo caso, se uma TV sem telenvagelistas é uma utopia, para casos mais extremos como o desse Profeta há uma solução mais concreta já testada: uma ação pública contra a emissora, pedindo a suspensão liminar do programa, o pagamento de danos morais coletivos e a cassação da concessão da Rede TV, como o Ministério Público Federal já fez uma vez contra ela própria. O negócio é encaminhar os protestos para o Ministério Público e torcer para que ONGs como a ATEA, a UNA ou a Liga Secular Humanista façam o papel que as ONGs LGBTT tiveram nessa outra ação do MP.



* Quando falo na ignorância e ingenuidade dos fiéis desses charlatães, já começo a escutar a voz de alguns relativistas. Um problema interessante de bioética é o da autonomia para recusar um tratamento. A aceitação disso como um princípio é o senso comum, mas ainda se coloca uma questão filosófica interessante que é a de saber se, em alguns casos, a pessoa está sendo realmente livre e autônoma quando decide irracionalmente ou, pior ainda, fechando os olhos para as evidências. Talvez dê para tirar uma discussão interessante daí a partir do debate entre Clifford e James. (Nota da nota: o caso das Testemunhas de Jeová é um ótimo exemplo de que na Aposta de Pascal o custo da aposta não é zero e o prejuízo na derrota é alto…)

** Interessante notar que a primeira lei citada, a da discriminação, só protege contra a discriminação por religião, deixando o ateu de fora. É uma situação mais desamparada que a da comunidade LGBTT que ainda tem pelo menos um projeto de lei a seu favor sendo discutido. Mas a base constitucional dessa lei protege a liberdade de crença e não só de crença religiosa. Por isso, os constitucionalistas entendem que esse dispositivo também protege o ateu: “(…) a liberdade de crença (…) também compreende a liberdade de não aderir a religião alguma (…)” (José Afonso da Silva) e “(…)o descrente também tem liberdade de consciência e pode pedir que se tutele juridicamente tal direito (…)” (Pontes de Miranda). Catei essas citações do pedido de abertura de inquérito do MP contra a Band por causa do Datena. Lá tem mais detalhes.

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Bernstein: o melhor dos mundos possíveis!


Como eu sei que pouca gente vai clicar no link colocado no post sobre o Problema do Mal, aqui fica um post com o vídeo direto da maravilhosa adaptação para a Broadway por Bernstein do clássico de Voltaire, Cândido. O melhor é que a sacaneada que Voltaire faz com o otimismo de Leibniz ainda soa bem atual quando a gente vê os teístas tentando contornar o problema do Mal e provar que tudo tem uma razão no plano divino. Não tem legenda, mas vou colocar a tradução lá embaixo. Cliquem no “read more”.

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Respondendo a homofobisteria dos pastores


Melhor coleção de reduções ao ridículo dos argumentos religiosos contra o casamento gay…


Epic Fail do Marco Feliciano


Eu sempre sustentei uma teoria (inspirada pela leitura de algumas provas de alunos) de que existem duas formas de erro: o erro passivo, uma privação, o erro no sentido da Quarta Meditação lá de Descartes, que é aquele no qual a mente deixa de acertar, que surge quando a pessoa não pensou muito antes de falar ou não sabe muito sobre o assunto; mas tem também um erro ativo, um erro que exige um esforço real para ser cometido, que ninguém comete por desleixo. Volta e meia tem aluno que inventa umas teorias tão malucas que só podem ser atribuídas a um esforço desse tipo. Pois bem, ando achando que algumas teses religiosas estão quase por aí: exigem um esforço contínuo para que se continue acreditando naquilo. Bem, nada que muitos fiéis não concordem. Já me falaram que a fé exige um esforço, é o resultado de uma busca ativa blá blá blá, o que só me sugere a palavra “auto-hipnose”. Mas em todo caso, o esforço de auto-ilusão explica que em alguns momentos as pessoas relaxem e acabem acertando sem querer! Foi o que aconteceu nesse vídeo com o Marco Feliciano, o ungido representante na Câmara dos Deputados de 211.855 eleitores que não aprenderam muito bem que religião não devia se meter com política. Reparem de que maneira, lá por volta de 1:20, ele argumenta contra a preocupação de que haverá proselitismo no ensino de religião:

Ele diz: “Se é ensinado nas escolas, de maneira científica, que o homem veio do macaco [siiiiiiiic!!], por quê não ensinar para as nossas crianças a outra história? Que o homem veio de Adão e Eva e de Deus. Porque, na língua portuguesa, se ensina factos fictícios! Nós estudamos histórias criadas e inventadas por homens. Shakespeare não é estudado na escola? (…) Se é apresentado, por quê não apresentar a maneira linda do criacionismo?

É isso mesmo, pastor! A luz da Razão o iluminou por um segundinho! Se já se ensina tantos factos fictícios, porque não ensinar mais um? Por quê não colocar a Bíblia na aula de literatura mundial, junto da Odisséia e do Épico de Gilgamesh? A qualidade literária não é das melhores — o autor do Gênesis narra uma história da Criação bem diferente poucas páginas depois de ter apresentado a primeira, não explica de onde brotaram todas as mulheres necessárias para a procriação dos filhos de Adão etc — mas tem uns bons momentos de fúria, sexo e safadeza, como outras boa obras literárias. Então, finalmente chegamos a um acordo!  Aula de religião = aula de literatura!


P.S.: Que argumentinho vagabundo foi esse contra o Estado laico? No julgamento da união homoafetiva no STF também usaram um nessa linha. No vídeo o pastor diz “(…) os juristas, os intelectuais vêm dizer que o país é laico. Laico onde? Me diga: Se qualquer de nós pegar uma nota de dinheiro agora vai encontrar lá a frase ‘Deus seja louvado’. Se Deus pode ser louvado na economia do país, por que não nas escolas?” Depois veio falar dos crucifixos nas casas legislativas e no STF.. Ora, pastor, se realmente há uma inconsistência, são esses símbolos que têm que dançar! Tá errado! Como um dos ministros do STF falou no julgamento de ontem, o Estado Laico é o fundamento da liberdade de religião, já que no dia em que o Estado assumir uma das religiões, todas as demais ficam ameaçadas. (isso é elementar, mas para algumas pessoas é preciso desenhar)


Hey, preachers, leave the kids alone!


Claro que doutrinação infantil não surgiu agora e sem ela a religião dementificante jamais teria chegado onde chegou. Dawkins costuma falar que o ensino religioso para crianças é uma forma de abuso infantil.

Esses gansos tiveram imprinting no piloto do ultraleve e agora o seguem pra todo lado

A mente de uma criança é muito mais vulnerável e a religião aproveita-se dessa vulnerabilidade para criar um imprintingde suas idéias na mente da criança, que fica marcada por elas da mesma maneira que os patinhos aprendem a seguir pelo resto da vida o primeiro animal que vê pela frente. (Uma vez minha mãe me levou para uma escola dominical esquisita, um único dia porque eu achei aquilo horrível, mas até hoje eu me lembro da musiquinha que cantavam lá, embora eu ainda desconfie que é mais porque a música era horrorosa, sem métrica, sem ritmo…uma experiência estética assustadora..)

Por isso é de ficar assustado quando se vê toda a discussão a respeito do ensino religioso nas escolas públicas, propostas de obrigatoriedade ou aberrações abomináveis como o fato de sua regulamentação no estado do Rio de Janeiro exigir professores certificados por uma autoridade religiosa! (Cf. art 2º, II. Lei esta obviamente proposta pelo casal de intelectuais Anthony e Rosinha Garotinho).

Mas isso é assunto para outro post, quando eu tiver mais tempo. Por ora fico só com essa proposta aparentemente tão bonitinha, inocente, acobertada por um nome de professorinha:

Pois é, Tia Jane, já imaginei sim. Na verdade não só imaginei como eu sei no que é que pode dar. Pode dar nisso:


Hume, Bayes e a Ressurreição de Jesus


Na linha isso-é-somente-um-bloco-de-notas vai aí esse vídeo em que William Craig responde a uma tese clássica de Hume sobre a epistemologia dos milagres e, dentre eles, a Ressurreição de Cristo. A tese de Hume ficou conhecida pelo motto altamente marketístico “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, mas nas suas próprias palavras foi assim colocada: “Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre a menos que o testemunho seja de um tipo tal que sua falsidade seria mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer

O uso para o caso da Ressurreição é simples: sendo esse evento elevadamente extraordinário (ou não, porque segundo Mateus houve uma epidemia de zumbis depois da crucificação) a evidência que nós precisamos para aceitar o relato que o descreve teria que ter um grau extraordinário de confiabilidade. Assim, mesmo que tivéssemos evidências em quantidade e qualidade equivalentes às utilizadas para estabelecer um fato histórico como a existência de Sócrates ou as circunstâncias da morte de César, o caráter extraordinário, miraculoso, do fato da Ressurreição faria com que elas fossem insuficientes.

Esse argumento me parece bastante razoável e eu fiquei bem curioso quando soube que Craig tinha calado a boca de Bart Ehrman (um scholar sobre Novo Testamento e Cristianismo primitivo) em um debate sobre a Ressurreição, respondendo à objeção de Hume com o Teorema de Bayes. Um resumo da sua resposta está no vídeo abaixo. Eu sei que deve existir uma versão mais sofisticada dessa resposta, mas como eu disse que isso era uma nota, vou deixar a análise do argumento usado no debate e da literatura sobre o assunto para depois.

O que eu acho estranho nessa resposta é que, como eu disse, Craig utiliza o Teorema de Bayes para responder Hume, mas eu tinha a impressão que era ponto pacífico na literatura que a tese de Hume sobre os milagres seria uma antecipação de Bayes. Nesse artigo e na transcrição do debate, parece que a objeção é a uma versão matematicamente tosca da tese de Hume, na qual a improbabilidade do fato seria diretamente comparada à improbabilidade do testemunho. Mas é aí que Bayes entra com a fórmula correta para avaliar o peso de uma evidência. Segundo ela a probabilidade de uma hipótese (H) dada uma certa evidência (E) é diretamente proporcional à probabilidade da hipótese em si mesma e à probabilidade da evidência dada a hipótese e inversamente proporcional à probabilidade da evidência em si mesma, ou seja, P(H|E) = [P(E|H)*P(H)]/P(E). Na Wikipédia e na Stanford Encyclopedia of Philosophy tem uns exemplos muito acessíveis, mas a idéia básica do exemplo da Wikipédia pode ser resumido assim: mesmo que um teste anti-drogas tenha precisão de 99%, se a ocorrência geral de uso de drogas na população a ser testada é de somente 5% um resultado positivo no teste só dá uma probabilidade de 33% de o testado usar drogas e não de 99% (vá lá na Wiki para os detalhes das contas). A certeza do teste é diminuída pela improbabilidade do testado ou, dito de outra maneira, para estabelecer um fato extremamente improvável é preciso um teste muito mais preciso. Pelas minhas contas, nesse exemplo da Wiki, um teste com precisão de 99,9% elevaria a confiabilidade do resultado para 83% e seria preciso um teste com 99,99% de confiabilidade para estabelecer uma certeza de 98% no uso de drogas. Ora, mas não é exatamente isso o que Hume diz? Bem, e mesmo que não seja exatamente isso, discussão que só interessa ao intérprete cri-cri do escocês, essa fórmula de Bayes não oferece um bom argumento contra milagres em geral e a Ressurreição?

Ora, para efeito do dogma a Ressurreição teria que ser um fato extraordinário, único e irrepetível na História (se bem que uma ressurreição dos mortos em si é algo bem vulgarizado na Bíblia). A resposta que Craig dá a Hume é que a probabilidade de “fatos” como a tumba vazia, as aparições de Jesus depois de sua morte e o espalhamento súbito da fé na Ressurreição sem que a Ressurreição tivesse de fato ocorrido, isto é, a probabilidade de um falso positivo, seria baixa demais e isso elevaria a probabilidade condicional da hipótese da Ressurreição relativamente às evidências. Mas essa avaliação da probabilidade da evidência é falsa. Considerados como fatos, esses relatos mostram eventos realmente improváveis, mas a evidência não são os fatos e sim os relatos destes fatos. Então a pergunta é: qual a (im)probabilidade de que esse tipo de relato acontecesse sem que tivesse acontecido uma Ressurreição? Ora, relatos de milagres, ressurreições, abduções para o Céu etc. ocorreram o tempo todo e nas mais diversas mitologias. Basta fazer uma compilação de um conjunto de Messias wannabe e Deuses ou Semi-deuses com características similares. A Wikipédia mais uma vez ajuda o blogueiro preguiçoso. A metáfora da divindade que morre e renasce é tão forte que a encontramos nas figuras de Asclépio, Orfeu, Krishna, Osiris, Tammuz, Dionísio e Odin. Na verdade, a Wiki tem um lista grande de deidades zumbis. Então, relatos de Ressurreição são algo relativamente trivial e, a menos que Craig decida aceitar um politeísmo gone wild, o índice de falsos positivos é enorme. Bem, mais leitura precisa ser feita e tem outros aspectos dos argumentos de Hume que são problemáticos, mas, pelo menos quanto ao uso da probabilidade e da lógica indutiva, parece que o escocês tem razão.