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Epic Fail do Marco Feliciano


Eu sempre sustentei uma teoria (inspirada pela leitura de algumas provas de alunos) de que existem duas formas de erro: o erro passivo, uma privação, o erro no sentido da Quarta Meditação lá de Descartes, que é aquele no qual a mente deixa de acertar, que surge quando a pessoa não pensou muito antes de falar ou não sabe muito sobre o assunto; mas tem também um erro ativo, um erro que exige um esforço real para ser cometido, que ninguém comete por desleixo. Volta e meia tem aluno que inventa umas teorias tão malucas que só podem ser atribuídas a um esforço desse tipo. Pois bem, ando achando que algumas teses religiosas estão quase por aí: exigem um esforço contínuo para que se continue acreditando naquilo. Bem, nada que muitos fiéis não concordem. Já me falaram que a fé exige um esforço, é o resultado de uma busca ativa blá blá blá, o que só me sugere a palavra “auto-hipnose”. Mas em todo caso, o esforço de auto-ilusão explica que em alguns momentos as pessoas relaxem e acabem acertando sem querer! Foi o que aconteceu nesse vídeo com o Marco Feliciano, o ungido representante na Câmara dos Deputados de 211.855 eleitores que não aprenderam muito bem que religião não devia se meter com política. Reparem de que maneira, lá por volta de 1:20, ele argumenta contra a preocupação de que haverá proselitismo no ensino de religião:

Ele diz: “Se é ensinado nas escolas, de maneira científica, que o homem veio do macaco [siiiiiiiic!!], por quê não ensinar para as nossas crianças a outra história? Que o homem veio de Adão e Eva e de Deus. Porque, na língua portuguesa, se ensina factos fictícios! Nós estudamos histórias criadas e inventadas por homens. Shakespeare não é estudado na escola? (…) Se é apresentado, por quê não apresentar a maneira linda do criacionismo?

É isso mesmo, pastor! A luz da Razão o iluminou por um segundinho! Se já se ensina tantos factos fictícios, porque não ensinar mais um? Por quê não colocar a Bíblia na aula de literatura mundial, junto da Odisséia e do Épico de Gilgamesh? A qualidade literária não é das melhores — o autor do Gênesis narra uma história da Criação bem diferente poucas páginas depois de ter apresentado a primeira, não explica de onde brotaram todas as mulheres necessárias para a procriação dos filhos de Adão etc — mas tem uns bons momentos de fúria, sexo e safadeza, como outras boa obras literárias. Então, finalmente chegamos a um acordo!  Aula de religião = aula de literatura!


P.S.: Que argumentinho vagabundo foi esse contra o Estado laico? No julgamento da união homoafetiva no STF também usaram um nessa linha. No vídeo o pastor diz “(…) os juristas, os intelectuais vêm dizer que o país é laico. Laico onde? Me diga: Se qualquer de nós pegar uma nota de dinheiro agora vai encontrar lá a frase ‘Deus seja louvado’. Se Deus pode ser louvado na economia do país, por que não nas escolas?” Depois veio falar dos crucifixos nas casas legislativas e no STF.. Ora, pastor, se realmente há uma inconsistência, são esses símbolos que têm que dançar! Tá errado! Como um dos ministros do STF falou no julgamento de ontem, o Estado Laico é o fundamento da liberdade de religião, já que no dia em que o Estado assumir uma das religiões, todas as demais ficam ameaçadas. (isso é elementar, mas para algumas pessoas é preciso desenhar)


Hey, preachers, leave the kids alone!


Claro que doutrinação infantil não surgiu agora e sem ela a religião dementificante jamais teria chegado onde chegou. Dawkins costuma falar que o ensino religioso para crianças é uma forma de abuso infantil.

Esses gansos tiveram imprinting no piloto do ultraleve e agora o seguem pra todo lado

A mente de uma criança é muito mais vulnerável e a religião aproveita-se dessa vulnerabilidade para criar um imprintingde suas idéias na mente da criança, que fica marcada por elas da mesma maneira que os patinhos aprendem a seguir pelo resto da vida o primeiro animal que vê pela frente. (Uma vez minha mãe me levou para uma escola dominical esquisita, um único dia porque eu achei aquilo horrível, mas até hoje eu me lembro da musiquinha que cantavam lá, embora eu ainda desconfie que é mais porque a música era horrorosa, sem métrica, sem ritmo…uma experiência estética assustadora..)

Por isso é de ficar assustado quando se vê toda a discussão a respeito do ensino religioso nas escolas públicas, propostas de obrigatoriedade ou aberrações abomináveis como o fato de sua regulamentação no estado do Rio de Janeiro exigir professores certificados por uma autoridade religiosa! (Cf. art 2º, II. Lei esta obviamente proposta pelo casal de intelectuais Anthony e Rosinha Garotinho).

Mas isso é assunto para outro post, quando eu tiver mais tempo. Por ora fico só com essa proposta aparentemente tão bonitinha, inocente, acobertada por um nome de professorinha:

Pois é, Tia Jane, já imaginei sim. Na verdade não só imaginei como eu sei no que é que pode dar. Pode dar nisso:


O oxigênio é uma dádiva divina?


Como alega o tosco pastor Marco Feliciano nesse tweet?

Não, pastor, o oxigênio é uma dádiva das cianobactérias! Vamos louvá-las?

Cianobactérias via Wikipédia

É a elas que realmente devemos o nosso oxigênio! Louvemos as bactérias!