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Plantinga e o Problema do Mal – I


Uma das minhas leituras de ônibus (bastante tempo disponível graças ao trânsito desgraçado de Recife) recentes tem sido o livro de Plantinga God, Freedom, and EvilLivro de Plantinga sobre o Problema do Mal e a defesa pelo livre-arbítrio um clássico contemporâneo sobre o Problema do Mal (“Se Deus é bom e onipotente, então por que o Mal existe?”), que fornece ótimos exemplos da utilização do novo instrumental da lógica modal mencionada no post inaugural. A idéia geral da resposta de Plantinga à objeção ateísta é simples. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a onipotência divina limita-se, segundo a maioria dos teólogos, àquilo que é logicamente possível, de modo que Deus não pode criar um círculo quadrado ou, de modo menos óbvio, criar ou fazer algo que implique uma negação de Sua própria essência, já que ela é necessária. Com isso em mente, Plantinga mostra certas situações em que é na prática impossível evitar que algum mal aconteça. Basta pensar em casos clássicos de decisão médica ou de algum resgate: por exemplo, dois alpinistas que são pegos por uma nevasca em pontos distintos de uma montanha e a equipe de resgate não pode se dividir entre os dois, de modo que só um deles será salvo a tempo. Ou então exemplos médicos, como só ter uma ampola de morfina e duas ou mais pessoas padecendo de dor excruciante. O ponto de Plantinga é que diante de uma situação dessas, você não pode ser condenado por não ter suprimido todo mal de que tinha conhecimento, visto que isso era impossível. A idéia de sua defesa contra o Problema do Mal via livre-arbítrio é mostrar a possibilidade de que o mesmo aconteça no caso de Deus: haveria mundos possíveis que Deus não poderia atualizar, ou pelo menos, estados de coisa incompatíveis entre si, de modo que Deus não poderia realizar todos os bens imagináveis e ficaria assim justificada a tese de Leibniz de que Ele teve que escolher o menos pior dos mundos possíveis.

Cena típica do melhor dos mundos possíveis (Fonte)

E Plantinga pretende se satisfazer somente com a possibilidade de uma explicação: como a objeção ateísta argumenta que as propriedades divinas são inconsistentes com a existência do Mal no mundo, exibir uma situação possível em que Deus mantenha suas propriedades e não possa eliminar o Mal mostraria que não existe essa contradição. Isso não o compromete, com ele mesmo salienta, com uma teodicéia, que seria uma teoria sobre as razões divinas para permitir a existência do Mal no mundo, e por isso é chamado de somente uma defesa.

Mundos possíveis que Deus não pode atualizar

Para mostrar que poderiam existir situações possíveis (com redundância mesmo) que Deus não pode atualizar, Plantinga fornece uma série de exemplos com uma estrutura comum: em uma determinada situação, alguém deve tomar uma decisão e essa decisão impede que outra possibilidade seja atualizável. Na verdade, já estou prestando um grande serviço à coerência e à inteligibilidade de Plantinga em apresentar a idéia assim, porque ele só diz uma frase que esclarece um dos nós do argumento depois de dar os exemplos. A idéia, em tese, é mostrar que, dada uma situação em que cabe a um sujeito Paul fazer uma escolha livre, “há um número de mundos possíveis tais que depende parcialmente de Paul se Deus pode ou não criá-los” (p.42). A idéia de que nossas decisões restringem o campo das possibilidades é bonita, é bastante cara a mim, e é bem utilizada na discussão sobre a lógica do tempo; basta pensar em uma situação em que as alternativas de uma escolha nunca mais estarão presentes, como, por exemplo, aquela possibilidade de pedir alguém em casamento que, se não foi tomada na hora certa, deixou de existir depois. O problema é que um bocado de pressupostos metafísicos e lógicos de Plantinga fazem com que ele formalize essa idéia de maneira bem menos interessante e que vai dar uma série de problemas no argumento depois. (Não sei se o povo percebe, mas tem um botão de “Leia mais” aí embaixo..)

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Mackie sobre o argumento do Bem maior


Dentre as respostas mais comuns ao Problema do Mal (“Se Deus é bom e onipotente, então porque o Mal existe?”), está a idéia de que os males no mundo estão aqui com vistas a um bem maior. É fácil citar um bocado de exemplos para isso: a pessoa que aceita passar por um tratamento médico difícil e doloroso com vistas a uma melhora futura da saúde, um professor como eu que passa um bocado de trabalhos no feriado com vistas ao maior engrandecimento intelectual do aluno 🙂 e, como Mackie mesmo salienta, o próprio fato da percepção da dor, que é um mecanismo que permite a sobrevivência do indivíduo. Nem todo caso se encaixa tão bem nessa resposta e começa a ser necessária uma ginástica para entender como aquilo se justifica em vista de um bem maior. É o caso de entender por que uma criança de dois anos pode ser acometida por uma terrível doença fatal ou em que um terremoto nível 9, seguido de um tsunami e uma catástrofe nuclear pode ajudar no nosso desenvolvimento como pessoa. A resposta padrão nesse caso é suplementar a resposta do bem maior com a idéia de que Deus cria uma “corrida de obstáculos” para ajudar na nossa evolução como pessoas. Isso tem um bocado de problema que eu vou abordar em outro post e ainda me deixa pensando que danado de bem maior foi esse na História da Humanidade que não poderia ter sido atingido senão através de toda a bagaceira da Segunda Guerra Mundial, com o Holocausto e o bombardeio atômico do Japão…

Em todo caso, John Mackie tem uma resposta a esse argumento que parece bem no ponto:

Verdades como estas são familiares e óbvias; mas elas também são totalmente irrelevantes. Pois, dado que todas elas concernem a relações causais, nas quais algo considerado um mal é visto como sendo um meio causalmente necessário  para, ou como um resultado ou acompanhamento de, algo que pode ser visto como um bem maior e que contrabalança aquele mal, elas somente explicam porque agentes cujo poder é limitado por leis causais independentemente existentes podem racionalmente tolerar o mal em vista do bem que o acompanha. Mas Deus, por hipótese, não é um tal agente. Se a onipotência significa alguma coisa, ela significa o poder sobre leis causais. Se há um criador onipotente, então se há alguma lei causal, ele deve tê-la feito, e se ele ainda é onipotente ele deve poder ser capaz de passar por cima delas. Se há um Deus, portanto, ele não precisa usar meios para  atingir seus fins. Então é inútil referir, em uma teodicéia, a quaisquer relações meio-fim, ou em geral causais, ordinárias, factuais.

MACKIE, J.L.; The Miracle of Theism p.152-153