Algumas notas sobre a genuflexão de Dilma


No post de ontem falei sobre a bela jogada da bancada dos Farisees for Jesus e sobre o problema que é essa intromissão da religião na política. Muito foi discutido de ontem para hoje e aqui vão só algumas notas rápidas:

  • Uma das histórias que estão rolando na internet é que Dilma baseou-se em um material errado que não corresponde ao oficial elaborado (mas ainda não publicado) pelo MEC. Dizem que o honrado Anthony Garotinho foi quem mostrou a Dilma um material completamente diferente, voltado ao trabalho com viciados em drogas e prevenção de DSTs em profissionais do sexo. Se Dilma não ficou com uma pulga atrás da orelha sobre qualquer coisa vinda do Garotinho, já é complicado, se ela não ligou para o Haddad para checar a autenticidade do material, já beira a incompetência mesmo. Outra versão é que ela viu os vídeos pelas reportagens da TV. Do jeito que a coisa vai eu fico seriamente com medo que essas reportagens tenham sido o Super Pop bizarro de domingo passado e a matéria gritantemente tendenciosa do Jornal da Record.
  • A realpolitik de Dilma pode não dar certo. Ela sequer obteve o fechamento de posição da bancada religiosa contra a convocação do Palocci e Marco Feliciano, o meu estudo de caso patológico favorito, disse que agora diz respeito a cada um como votar nesse caso. Quer dizer, Dilma agora pode correr o risco de ser duplamente chantageada na mesma matéria, uma espécie de bi-tributação pela frouxeza.
  • Vários petistas mais ferrenhos estão usando o velho argumento da estratégia de longo prazo, de que Dilma está dando um passo atrás para dar dois à frente, que é preciso confiar nela (o Trending Topic #1 do Brasil era #confioemdilma, mas impulsionado por um bocado de gente sacaneando com a própria hashtag) e que ela está consciente da ameaça evangélica e está pensando como lidar com ela. Essa leitura telepática da mente da presidenta é encontrada nesse texto bem típico da justificação a posteriori de militância.
  • Esse texto diz que o jogo político é um jogo de xadrez. Na verdade é um jogo de poker, com blefes e ameaças, em que raramente se chega às cartas na mesa. O governo engoliu o blefe (até porque o Palocci tinha enfraquecido muito suas cartas), mas tinha (e ainda tem) outras munições. O jogo de ameça mútuas sempre tem muito de teatro; a bancada evangélica não ficaria nada confortável em uma oposição radical. O problema é que nessa big picture que os petistas tentam encontrar na estratégia da Dilma, os evangélicos têm pretensões próprias e é isso que pode servir para duvidar da realpolitik do PT. O que o governo não deveria tirar do foco é o fato de que Jesus tem sua própria agenda e pode trocar de lado em 2014. Os evangélicos estão comemorando a genuflexão de Dilma como um golaço. Imagina o efeito disso nas suas bases..
  • Votei em Dilma, falei um bocado a favor e aindo acho que a continuidade do governo de Lula é o melhor projeto político realista para o Brasil no momento. E também achava que ela representava o projeto político mais capacitado para fazer frente às forças retrógradas que pautaram o debate do segundo turno das Eleições de 2010. A gente não espera do nosso candidato só a busca da estabilidade e prosperidade econômica.  Por isso fico puto com o blablablá de que quem critica está fazendo a agenda da imprensa oposicionista. Se é verdade que o governo só tem cinco meses, também é verdade que se trata de um governo de continuidade. Não tem que arrumar a casa, reverter políticas e por isso a desculpa do “não deu tempo para mostrar serviço” não se aplica muito bem a casos como o do Kit Anti-Homofobia ou aos retrocessos no MINC. É claro que não é para se abater, mas eu acho que a entrevista do Haddad ontem mostrou um certo recuo do recuo que pode ter sido motivado pela gritaria da militância. Como eu disse acima, nos TTBr de ontem ficou no topo a hashtag #confioemdilma. Eu tenho esperança no governo dela, fiz a aposta, mas isto não é um cheque em branco. Não tenho cargo de confiança no governo, não me beneficio da mera permanência de um grupo no poder. Não acho que ela deva ser poupada de pressões num momento desses, porque não acredito que nada esteja garantido.
  • Em todo caso, para complicar todo o festival de explicações dos militantes mais ferrenhos Dilma deu essa declaraçaõ horrorosa, que eu preferia que fosse boato, mas não é, e que é próxima demais às coisas que Bolsonaro et caterva costumam dizer para não se sentir incomodado:

Alguns textos sobre a confusão (em um amplo espectro de posições):

Código Florestal e Chapeuzinho Vermelho de Miguel do Rosário

Somos Todos Reféns da Política Partidária? de Amanda Vieira

O Governo Entrega o Ouro de Tsavkko

Dilma Roussef, Palocci e os Omeletes de Rodrigo Vianna

Palocci e as Escolhas de Dilma Rousseff de Rodrigo Vianna

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2 respostas para “Algumas notas sobre a genuflexão de Dilma

  • Amanda

    Bacana o seu texto! Grata por mencionar meu post ao final. Abracos

    • Leonardo Cisneiros

      Massa, Amanda! Eu achei que você trouxe uns bons pontos para a discussão e um bom contraponto ao deixa-disso de parte da militância. Você viu o post anterior?
      Volte sempre!
      Abraços!

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