Festival de Besteiras Teístas – I


Ando sem tempo para postar no blog, por causa de uma mudança de cidade e uma nova carga de trabalho, mas só para não deixar o blog morrer de inanição, vou compartilhar algumas pérolas descobertas recentemente na internet. Fui fazer uma busca atrás de material para discutir e também para saber se o Craig tinha uma resposta pronta para uma ótima objeção ao Argumento Moral [ver obs lá embaixo] e acabei descobrindo uma penca de blogs teístas dedicados a uma cruzada contra os chamados neo-ateístas. Pelo menos um deles possui alguma sofisticação técnica em filosofia e eu também concordo, em parte, com a acusação de superficialidade filosófica a gente como Dawkins e Hitchens (mas não ao Dennett! No dia em que essa turma tiver 10% da importância filosófica dele, eu me calarei). Mas para cada blog teísta que tenta se aprofundar numa argumentação racional decente e até lidar com uma das questões mais complicadas da metafísica contemporânea, a da realidade do tempo, existem, listados no seu próprio blogroll, vários blogs que não escondem o que está por trás do pensamento desse teísmo militante. Esse blog linka, por exemplo, um blog autodenominado Mente Conservadora, cuja aliança com Silas Malafaia, não importa em que assunto, já seria sinal suficiente de pouco mérito intelectual, mesmo sem contar o apoio a Bolsonaro e uma preocupação suspeita com o tema da imigração na Europa. É esse tipo de gente que ilustra perfeitamente as preocupações manifestadas no post inaugural com a ingerência dos defensores dessas superstições judaico-cristãs na vida pública: por exemplo, nesse post o autor fala de um projeto para incluir na Constituição Federal o mito cristão de que a a vida humana e a proteção moral a ela iniciam-se com a concepção. Como já mencionei em outro post, não há critérios públicos suficientes para garantir que um aglomerado de células sem mesmo um sistema nervoso formado seja diretamente sujeito de direitos. O ponto é que gente desse tipo não é em nada diferente dos muçulmanos militantes que eles mesmos combatem e que querem contaminar a legislação com preceitos religiosos. Na ausência de evidência pública e objetiva, impor a gravidez de anencéfalos ou vetar o casamento de homossexuais não difere muito de impor o véu a mulheres.

Bem, como o festival de besteiras é tão grande como minha lista de tarefas no momento, vou guardar outras para outros posts.


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Obs.: O Argumento Moral diz, em suma, que se Deus não existe, não há valores morais objetivos e uma ação má como o estupro não seria objetivamente má, mas apenas uma questão de condenação social. A estrutura do argumento seria um modus tollens bonitinho [mas que nesse caso seria inválido na lógica intuicionista*..hehe]: Se Deus não existe, não há uma moral objetiva; há uma moral objetiva; logo, Deus existe.

Uma resposta usada nos debates de hoje em dia vem de não menos longe do que a obra de Platão: se Deus determina o que é certo e o que é errado, ou ele o faz a partir de algum critério ou o faz sem critério. Se o faz sem critério, isso é arbitrário e incompatível com a inteligência divina (e elimina o caráter intrínseco da moralidade da ação, já que um assassinato poderia ser bom caso Deus o ordenasse), mas se o faz a partir de um critério, é esse critério que determina o que é bom ou mau e não simplesmente a vontade divina. É de esperar que Craig tenha uma resposta a essa objeção, mas não a vi ainda até porque não procurei o suficiente.(Voltar para cima)

(Atualização 07/05/11: Num post posterior sobre o argumento moral, eu falo rapidamente da resposta de Craig. E nesse blog tem uma resposta maior, que não me parece tão clássica, mas serve..)

* O par de premissas ~p->~q;q só prova imediatamente ~~p, que não é redutível na lógica intuicionista a p. Se a gente ler a lógica intuicionista como uma lógica da provabilidade, então essa conclusão ~~p pode ser lida como “não é demonstrável que Deus não existe” o que é muito menos do que deseja o teísta…

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6 respostas para “Festival de Besteiras Teístas – I

  • JMK

    Por que você acha que o idiota-charlatão do Demenntt, quero dizer, Dennett, merece algum respeito ou consideração? Sinceramente, precisa ser muito cego ou burro para ver algum valor em alguém que admitiu ter escrito sua obra mais divulgada apenas por conveniências do momento, mesmo sem ter conhecimento adequado de outras religiões que não as vertentes mais recentes do Cristianismo 😀

    • Leonardo Cisneiros

      Cara, vou confessar que não li (ainda) o Breaking the Spell, embora eu espere mais consistência filosófica nele no que no God Delusion. Meu ponto ao afirmar que Dennett é um caso totalmente diferente é que ele possui uma obra filosófica importante e sua teoria sobre a mente, concorde com ela ou não, é presença obrigatória em qualquer introdução à filosofia da mente. Eu diria até mais: quando forem fazer uma História da Filosofia no Século XX é muito mais provável e justificado que o nome de Dennett seja citado do que o do Craig ou mesmo o do Plantinga, que é bom e importante, mas não tão original quanto Dennett.

  • A discussão do Argumento Moral no debate com Craig « Summa pro Infidelibus

    […] rapidamente no post anterior sobre o Argumento Moral para a existência de Deus, um dos mais caros ao grande apologeta William […]


  • Não tô entendendo. Temos regras de blogroll agora? Pra eu colocar um link para outro blog eu tenho que concordar com 100% do que ele diz? Ou você quer dizer que a qualidade de um blog se mede pela qualidade do seu blogroll?

    • Leonardo Cisneiros

      Caro Zé Adsf,
      o blogroll é um endosso do outro blog, uma recomendação de leitura por algum motivo. Não precisa ser exatamente por concordar 100%, mas tem que ser porque encontra algo de aproveitável lá. No meu blogroll mesmo tem dois sites cristãos de alta qualidade, o Prosblogion e o do Craig. Recomendo a qualquer ateu que os leia, porque o nível dos argumentos lá é elevado, assim como recomendo a qualquer adolescente ateu que largue Nietzsche e vá ler São Tomás, pra entender melhor com quem está discutindo. O blog citado recomenda no seu blogroll, além desse bolsonarista mencionado no post, a leitura de um blog anti-evolucionista cujos exemplos dão vergonha alheia pelo nível pré-escolar de compreensão da biologia (e que será assunto do Festival II). Isso diz alguma coisa sobre quem recomenda, embora em um post ou outro esse blog aí tente subir o nível.

      Abraços


      • Continua na falácia genética, mas ok, já estou acostumado com esse tipo de “argumentação”. Deixa pra lá… Have a nice life!

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