Arquivo do mês: abril 2011

Por quê a Filosofia da Religião é tão legal?


Copiei o texto abaixo do blog Common Sense Atheism. Assino embaixo, inclusive e sobretudo com o final.

Por quê a Filosofia da Religião é tão legal?

  1. Porque é épica pra caralho. O que está em jogo não poderia ser maior. Nós estamos discutindo a respeito da natureza mais fundamental do universo, o fundamento de toda existência, a fonte da moralidade, o propósito e o sentido da existência humana, a vida eterna ou a morte iminente.
  2. Porque há dois lados bem distintos, basicamente: ateísmo vs teísmo. Dois caras num ringue, trocando socos..
  3. Porque é imediatamente relevante e supremamente importante para bilhões de pessoas. As outras escolas de filosofia nos invejam. Você não consegue tanto destaque na imprensa escrevendo sobre epistemologia ou filosofia da linguagem.
  4. Porque está focada em uma lista de argumentos facilmente resumíveis que são continuamente revertidos, atenuados, reafiados, contra-atacados e reimplementados em ambientes epistemológicos e de evidência rapidamente mutáveis, como dois ninjas em uma luta de espadas em cima de um trem em movimento.
  5. Porque ela tem uma história incomumente longa e interessante.
  6. Porque ela se presta a debates públicos melhor que muitos outros tópicos filosóficos.
  7. Porque ela disfarça batalhas religiosas antigas e sangrentas em uma conversa filosófica rigorosa e cavalheiresca.
Mas há uma razão pela qual a filosofia da religião não é tão legal, e é o bastante para algumas pessoas a ignorarem por completo:
Filosofia da religião consiste em argumentos e especulações sobre seres mágicos.
Então é isso, isso é um lado ruim. Algumas vezes eu me sinto como se eu estivesse fazendo “filosofia dos lobisomens”.
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Mackie sobre o argumento do Bem maior


Dentre as respostas mais comuns ao Problema do Mal (“Se Deus é bom e onipotente, então porque o Mal existe?”), está a idéia de que os males no mundo estão aqui com vistas a um bem maior. É fácil citar um bocado de exemplos para isso: a pessoa que aceita passar por um tratamento médico difícil e doloroso com vistas a uma melhora futura da saúde, um professor como eu que passa um bocado de trabalhos no feriado com vistas ao maior engrandecimento intelectual do aluno 🙂 e, como Mackie mesmo salienta, o próprio fato da percepção da dor, que é um mecanismo que permite a sobrevivência do indivíduo. Nem todo caso se encaixa tão bem nessa resposta e começa a ser necessária uma ginástica para entender como aquilo se justifica em vista de um bem maior. É o caso de entender por que uma criança de dois anos pode ser acometida por uma terrível doença fatal ou em que um terremoto nível 9, seguido de um tsunami e uma catástrofe nuclear pode ajudar no nosso desenvolvimento como pessoa. A resposta padrão nesse caso é suplementar a resposta do bem maior com a idéia de que Deus cria uma “corrida de obstáculos” para ajudar na nossa evolução como pessoas. Isso tem um bocado de problema que eu vou abordar em outro post e ainda me deixa pensando que danado de bem maior foi esse na História da Humanidade que não poderia ter sido atingido senão através de toda a bagaceira da Segunda Guerra Mundial, com o Holocausto e o bombardeio atômico do Japão…

Em todo caso, John Mackie tem uma resposta a esse argumento que parece bem no ponto:

Verdades como estas são familiares e óbvias; mas elas também são totalmente irrelevantes. Pois, dado que todas elas concernem a relações causais, nas quais algo considerado um mal é visto como sendo um meio causalmente necessário  para, ou como um resultado ou acompanhamento de, algo que pode ser visto como um bem maior e que contrabalança aquele mal, elas somente explicam porque agentes cujo poder é limitado por leis causais independentemente existentes podem racionalmente tolerar o mal em vista do bem que o acompanha. Mas Deus, por hipótese, não é um tal agente. Se a onipotência significa alguma coisa, ela significa o poder sobre leis causais. Se há um criador onipotente, então se há alguma lei causal, ele deve tê-la feito, e se ele ainda é onipotente ele deve poder ser capaz de passar por cima delas. Se há um Deus, portanto, ele não precisa usar meios para  atingir seus fins. Então é inútil referir, em uma teodicéia, a quaisquer relações meio-fim, ou em geral causais, ordinárias, factuais.

MACKIE, J.L.; The Miracle of Theism p.152-153


O Argumento Cosmológico Recauchutado


O carro chefe inquestionável do maior apologeta cristão de hoje em dia, William Lane Craig, é uma versão requentada por ele do Argumento Cosmológico para a existência de Deus. Esse argumento, cujo proponente mais famoso foi São Tomás de Aquino e que já estava esboçado na Metafísica de Aristóteles, está na boca do povo na forma da questão “se o Universo tem um começo, quem criou o Universo?”. Todo crente tem uma vaga noção desse argumento, então vamos ensinar aqui o básico de como ele funciona, antes de começar a desmontá-lo…iObs

A versão requentada de Craig tem o nome de Argumento Cosmológico Kalam, pois se inspira em alguns sub-argumentos utilizados por alguns filósofos muçulmanos da Idade Média, pertencentes a uma tradição teológica com esse nome. A novidade desses sub-argumentos, destinados a provar que o Universo teve um início e, portanto, é contingente e precisa ter sido criado, era o emprego de alguns paradoxos matemáticos com o infinito, principalmente uma conhecida propriedade de conjuntos infinitos: a possibilidade de colocar seus elementos em uma relação um para um com os elementos de um subconjunto e é por isso que existem tantos números pares quanto números naturais, mesmo sendo o conjunto daqueles somente uma parte do conjunto destes. Al Ghazali usou essa propriedade para argumentar que se o Universo não tivesse tido um começo e o tempo passado, por consequência, fosse infinito, chegaríamos à conclusão de que, embora a órbita de Júpiter seja completada em menos do que a metade do tempo que Saturno leva para completar a sua órbita, ambos os planetas teriam completado o mesmo número de voltas em torno do Sol, o que seria paradoxal. [Obs. pra mim: isso torna esse argumento mais forte do que o da impossibilidade do regresso ao infinito, respondido por Tomás no De Eternitate Mundi]

Apesar desse monumento aristotélico em Triunfo - PE, ninguém reza para o Motor Imóvel

Com a tese da não eternidade do mundo em mãos, o proponente do argumento pode juntar a afirmação de que tudo o que começa a existir tem uma causa e extrair a conclusão de que o Universo tem uma causa. Essa é a base da prova. Depois o cabra tem que ralar mais um pouquinho para mostrar que essa causa primeira é algo parecido com o Deus da religião, já que ninguém reza para o Motor Imóvel…

Bem, quem estiver interessado em conhecer uma versão fast-food da prova completa, incluindo essa parte em que se demonstra que a causa primeira é um Deus pessoal, transcendente etc. pode ver os dois primeiros vídeos do debate de Craig com o filósofo ateu Austin Dacey. O maior prejuízo da exposição mais rápida é a troca do argumento da impossibilidade de um infinito atual para a finitude do passado pelo recurso à teoria do Big Bang, como argumento para a tese de que o Universo teve um início. É uma má jogada, como mostra Dacey na sua objeção.

Seguindo a sugestão do Luke do Common Sense Atheism, também resolvi fazer um mapa do argumento usado por Craig no debate, acrescentando o sub-argumento para a finitude do passado. O bom desse mapa é dar a noção da complexidade da coisa toda e também fornecer um guia para as críticas. Já existem vários softwares para fazer esse tipo de mapa de argumentos, inclusive com espaço para as objeções, mas não tive muito tempo ainda de instalar e testar um deles. Por isso, fiz no Inkscape mesmo. Cliquem para ampliar.

Mapa do Argumento Cosmológico Kalam completo


Toda pessoa religiosa é dogmática?


E o debate no Facebook continua, suscitando a possibilidade de pensar cada vez melhor sobre o tema da relação entre religião e Estado. Vou colocar abaixo uma parte da discussão depois do ponto do post anterior. Não vou colocar o nome da amiga de Jampa, porque não sei se ela autoriza.

Jampa

Já dá para fazer um copiar/colar do texto acima em seu blog. Está claro e sem tecnicismo desnecessario ao tipo de debate. Mostra exatamente onde o dogmatismo religioso atua para freiar ou conter o debate que exige ponderação e discernimento, mas também, em seguida, deve conduzir ao arbitrio e ação informada, minimizando sofrimento e reduzindo danos de várias ordens. A lógica predominante me para de forte veio iluminista (eu não tenho problemas nenhum com isso), acho que nossa racionalidade deve sempre que possível nos servir de apoio aos nossos anseios de melhoramento existenciais mundanos. Mas, como dizia Paulo Honório, continuemos…

Eu:

Quanto ao iluminismo, Adorno, que é Adorno, diz na Dialética do Esclarecimento: “essa é a nossa petitio principii – a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecedor”. Não dá pra ser crítico da modernidade e cair num pós-modernismo que abre espaço para todas as irracionalidade e principalmente um relativismo em que vários absolutismos convivem numa pluralidade tensa. Ando um pouco temeroso.. hehe

Jampa:

É… eu me formei sociólogo através da forte identificação ao esforço liberador de sociólogos como Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu. Tem um livro que eu gosto muito, organizado por Jacques Bouveresse e Daniel Roche, editado pela Odile Jacob, que é uma homenagem a Bourdieu depois de sua morte. O livro se chama: La liberté par la connaissance. Estou em consonância com esse espírito e acho que o foco da reflexão pode, entre outras coisas, nos ajudar a entender os limites e alcances do propósito libertário de nossos princípios éticos e, por que não dizer, racionais.

A Amiga de Jampa:

não creio que uma opinião simplesmente por ser de ordem religiosa tenha necessariamente quer dogmática. Além disso, não vejo como ponto pacificado a questão da senciência. Nem mesmo um ativista pró-aborto e infanticídio como Peter Singer sustenta uma opinião como essa.

Eu:

Bem, concedo que nem toda posição religiosa é radical e dogmática, penso agora em pessoas com quem convivi no Marista e no INSAF e em algumas figuras da Igreja Anglicana que conseguem enfraquecer bastante o discurso do Dawkins, mas é esta posição radical que vem tendo força de mobilização na sociedade, mesmo em lugares que tinham antes uma vanguarda. Por exemplo, a CNBB foi um foco importante de luta contra a ditadura e defendeu bandeiras avançadas, mas hoje, acuada pela ameaça evangélica, ficou cada vez mais conservadora e conseguiu a absurda posição de amicus curiae no STF no julgamento a respeito da união civil de homossexuais. A religião não tem nada a contribuir como tal a esse debate, a CNBB não tem nenhuma autoridade técnica sobre o assunto e seu interesse na questão é completamente espúrio, até porque a decisão afeta casais homossexuais de qualquer credo ou nenhum.

Por uma questão de lógica, uma discussão que pretenda chegar a um fim tem que partir de certas premissas compartilhadas, senão as partes ficam falando de assuntos distintos e nada pode ser concluído. Bem, sendo as decisões do Estado aplicáveis a todos os cidadãos, quer comunguem de algum credo ou não, segue-se que a fundamentação dessas decisões não podem estar em premissas que sejam compartilhadas (sem maiores argumentos = fé) somente por uma parte da população. No momento eu não creio que um feto com um mês de gestação seja um portador de direitos, enquanto já acho praticamente impossível justificar o aborto de um feto com cinco meses de gestação. Estou aberto a ser convencido do contrário, mas o que irá me convencer não pode usar como premissa “Deus existe, logo…” porque eu não compartilho dela. A única forma de argumentação aceitável, portanto, são formas públicas de evidência, como as fornecidas pela ciência e, em certa medida, pela filosofia. O exemplo que eu dei foi só para mostrar como filosofia e ciência se articulam na formação dessas evidências públicas. Eu também não acho o critério da senciência suficiente e nem tenho total certeza se há um só critério para a proteção moral e qual é ele, mas a questão é que precisamos de um critério argumentado e que seja aplicável a partir de um teste público, seja ele a senciência, a consciência,  a autonomia moral ou outro.

Por isso, eu acredito que quando as pessoas religiosas não dogmáticas conseguem entrar, participar e contribuir positivamente para um debate público como este, elas não o fazem exatamente enquanto religiosas, mas sim como pessoas que deixaram a Razão esclarecer a sua religião e de certa forma reinterpretam esta a partir daquela. Estou pensando em um exemplo interessante do Dawkins, quando ele reflete sobre a razão pela qual a maioria absoluta das pessoas religiosas não segue certos preceitos bíblicos como apedrejar homossexuais, pessoas que trabalham no sábado e crianças chatas. Ele diz que quando alguém se afasta de uma leitura literal da Bíblia nesses pontos, ela está usando um critério de moralidade independente dos comandos da religião para definir a leitura correta desses comandos. O caminho do nosso pensamento é o contrário do que gostariam de crer aqueles que defendem que toda moralidade vem da Bíblia: na verdade, supondo que a Bíblia deva dizer o que é certo e o que é errado, nós editamos, a partir de um senso moral maior e anterior, o que deve ou não ser entendido literalmente. Logo, a moralidade não seria diretamente derivada das Escrituras e dos preceitos da religião. E é assim que eu acho que agem as pessoas religiosas que fogem ao dogmatismo. Nada contra, pois para elas a religião passa a ser um guia pessoal, íntimo e eu também nada teria contra alguém que adotasse como modelo de conduta algum personagem da literatura, como Jean Valjean. O problema é que essa convicção íntima não pode passar a algo que se impõe a outros, sem antes passar pelo tribunal da Razão (copyright Kant..)


A opinião médica sobre os anencéfalos


Só para acrescentar mais um dado à discussão sobre o aborto de anencéfalos em um post anterior, o Conselho Federal de Medicina emitiu, depois de realizar um Fórum de discussões só sobre o tema, uma resolução, a Nº 1752/2004, equiparando a anencefalia à morte cerebral e autorizando a doação dos órgãos do feto.

Quanto à questão do sofrimento da mãe, é interessante lembrar que a lei penal já aceita esse critério* para o caso de gravidez oriunda de estupro, num caso em que o feto pode ser perfeitamente viável. É mais uma fonte de incoerência na legislação fazer a gestante carregar um filho inviável e correr os diversos riscos desse tipo de gravidez. Sorte que há um juiz ou outro, como este juiz do MS, que consegue perceber isso:

Não tenho dúvida em asseverar que não permitir que uma gestante possa decidir acerca da interrupção de gravidez, em caso de feto anencefálico, a impor-lhe todos os danos psicológicos da manutenção dessa gestação, é descurar-se que nossa República é inspirada pelo princípio fundamental da dignidade humana (Constituição Federal de 1988, art. 1º, inciso III). (..) Há, sim, uma escolha (a interrupção) que, sem embargo, não ofende o bem jurídico tutelado pelo Direito Penal. Cuida-se (repise-se) de conduta atípica penal


God of Gaps


Clássico, mas sempre válido…

Imagine a ciência pudesse apelar para o "Deus quis assim" sempre... A roda ainda seria quadrada..

"Eu acho que você deveria ser mais explícito no segundo passo..."


Primeiras polêmicas no Facebook


É isso que dá ter um bocado de amigo filósofo, sociólogo e de outras espécies intelectuais no Facebook: o tempo todo nossos posts geram imensos debates. Alguns deviam até ser publicados. O François, pelo menos na época das eleições, estava recortando e colando alguns dos debates lá. Se as pessoas deixarem, vou ver se faço algo assim aqui. Mal inaugurado o blog, um questionamento que surgiu no Mural do meu amigo Jampa foi o de que eu estaria simplificando a discussão de certos temas complexos, como o aborto de anencéfalos, ao tratar somente da ponta do iceberg da discussão, que são suas repercussões jurídicas. É uma boa crítica, que me dá a oportunidade de esclarecer melhor o que falei lá post inaugural. Essa foi a resposta que eu dei:

Claro que o aborto é uma questão mais complexa do que a jurídica, mas, a partir do momento em que é uma ilegalidade o exercício da discussão ética perde muito da sua força, já que a decisão da consciência individual não faz diferença quanto às ações práticas Em todo caso, eu acho que a posição profundamente reducionista é a religiosa. A partir do momento que certas discussões se tornam um anátema e uma mobilização de massa feita somente em nome da fé, sem uma compreensão mais profunda do que essa fé realmente implica, a gente perde a oportunidade de discutir o que realmente importa no assunto. Por exemplo, a discussão de um critério laico para definir a permissibilidade do aborto é importante para estabelecer um ponto em que ele seria aceitável ou não. A partir do momento em que entra no debate uma posição radical e não fundamentada, a gente perde a chance da discussão de pontos mais importantes e delicados. Mais importante ainda: o debate jurídico tem que ser um debate no espaço público e estar submetido às ferramentas do diálogo público. O ato de fé de considerar um aglomerado de células nem sequer implementado no útero como uma pessoa plena de direitos não se sustenta, tanto quanto sei, nos requisitos desse debate público. Filósofos e cientistas levam o debate adiante, quando, por exemplo, os filósofos concordam com a senciência como critério de proteção moral e os cientistas indicam em que ponto da gravidez ela começa a existir. A posição religiosa radical (mas quase unânime nesse caso) elimina o debate.

Por outro lado, se a religião simplifica questões complexas, ela também complica coisas que são simples. Algumas coisas são simples e o aborto de anencéfalo não seria problema se não houvesse a interferência de posições religiosas profundamente dogmáticas e supersticiosas. Por qualquer um dos critérios mais discutidos para personalidade e/ou proteção moral – senciência, consciência, potencialidade, autonomia – um feto anencéfalo estaria fora dessa esfera de direitos. Além disso há uma inconsistência na aceitabilidade do fim irreversível da atividade cerebral como critério de morte e não aceitar a ausência de formaçaõ completa do cérebro no feto como determinante de não vida. O problema que eu coloquei lá não era nem o problema jurídico no final das contas, mas um de decência ética: torturar a mulher que carrega um feto anencéfalo em nome do ideal de virtude masoquista típico do Cristianismo é inverter completamente a equação utilitarista, é trocar a felicidade concreta de um ser humano adulto, consciente, autônomo, pela perspectiva de felicidade de um ser que não existe ainda e, dada a má-formação, sequer tem o potencial de ser esse adulto consciente.


Hume, Bayes e a Ressurreição de Jesus


Na linha isso-é-somente-um-bloco-de-notas vai aí esse vídeo em que William Craig responde a uma tese clássica de Hume sobre a epistemologia dos milagres e, dentre eles, a Ressurreição de Cristo. A tese de Hume ficou conhecida pelo motto altamente marketístico “Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”, mas nas suas próprias palavras foi assim colocada: “Nenhum testemunho é suficiente para estabelecer um milagre a menos que o testemunho seja de um tipo tal que sua falsidade seria mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer

O uso para o caso da Ressurreição é simples: sendo esse evento elevadamente extraordinário (ou não, porque segundo Mateus houve uma epidemia de zumbis depois da crucificação) a evidência que nós precisamos para aceitar o relato que o descreve teria que ter um grau extraordinário de confiabilidade. Assim, mesmo que tivéssemos evidências em quantidade e qualidade equivalentes às utilizadas para estabelecer um fato histórico como a existência de Sócrates ou as circunstâncias da morte de César, o caráter extraordinário, miraculoso, do fato da Ressurreição faria com que elas fossem insuficientes.

Esse argumento me parece bastante razoável e eu fiquei bem curioso quando soube que Craig tinha calado a boca de Bart Ehrman (um scholar sobre Novo Testamento e Cristianismo primitivo) em um debate sobre a Ressurreição, respondendo à objeção de Hume com o Teorema de Bayes. Um resumo da sua resposta está no vídeo abaixo. Eu sei que deve existir uma versão mais sofisticada dessa resposta, mas como eu disse que isso era uma nota, vou deixar a análise do argumento usado no debate e da literatura sobre o assunto para depois.

O que eu acho estranho nessa resposta é que, como eu disse, Craig utiliza o Teorema de Bayes para responder Hume, mas eu tinha a impressão que era ponto pacífico na literatura que a tese de Hume sobre os milagres seria uma antecipação de Bayes. Nesse artigo e na transcrição do debate, parece que a objeção é a uma versão matematicamente tosca da tese de Hume, na qual a improbabilidade do fato seria diretamente comparada à improbabilidade do testemunho. Mas é aí que Bayes entra com a fórmula correta para avaliar o peso de uma evidência. Segundo ela a probabilidade de uma hipótese (H) dada uma certa evidência (E) é diretamente proporcional à probabilidade da hipótese em si mesma e à probabilidade da evidência dada a hipótese e inversamente proporcional à probabilidade da evidência em si mesma, ou seja, P(H|E) = [P(E|H)*P(H)]/P(E). Na Wikipédia e na Stanford Encyclopedia of Philosophy tem uns exemplos muito acessíveis, mas a idéia básica do exemplo da Wikipédia pode ser resumido assim: mesmo que um teste anti-drogas tenha precisão de 99%, se a ocorrência geral de uso de drogas na população a ser testada é de somente 5% um resultado positivo no teste só dá uma probabilidade de 33% de o testado usar drogas e não de 99% (vá lá na Wiki para os detalhes das contas). A certeza do teste é diminuída pela improbabilidade do testado ou, dito de outra maneira, para estabelecer um fato extremamente improvável é preciso um teste muito mais preciso. Pelas minhas contas, nesse exemplo da Wiki, um teste com precisão de 99,9% elevaria a confiabilidade do resultado para 83% e seria preciso um teste com 99,99% de confiabilidade para estabelecer uma certeza de 98% no uso de drogas. Ora, mas não é exatamente isso o que Hume diz? Bem, e mesmo que não seja exatamente isso, discussão que só interessa ao intérprete cri-cri do escocês, essa fórmula de Bayes não oferece um bom argumento contra milagres em geral e a Ressurreição?

Ora, para efeito do dogma a Ressurreição teria que ser um fato extraordinário, único e irrepetível na História (se bem que uma ressurreição dos mortos em si é algo bem vulgarizado na Bíblia). A resposta que Craig dá a Hume é que a probabilidade de “fatos” como a tumba vazia, as aparições de Jesus depois de sua morte e o espalhamento súbito da fé na Ressurreição sem que a Ressurreição tivesse de fato ocorrido, isto é, a probabilidade de um falso positivo, seria baixa demais e isso elevaria a probabilidade condicional da hipótese da Ressurreição relativamente às evidências. Mas essa avaliação da probabilidade da evidência é falsa. Considerados como fatos, esses relatos mostram eventos realmente improváveis, mas a evidência não são os fatos e sim os relatos destes fatos. Então a pergunta é: qual a (im)probabilidade de que esse tipo de relato acontecesse sem que tivesse acontecido uma Ressurreição? Ora, relatos de milagres, ressurreições, abduções para o Céu etc. ocorreram o tempo todo e nas mais diversas mitologias. Basta fazer uma compilação de um conjunto de Messias wannabe e Deuses ou Semi-deuses com características similares. A Wikipédia mais uma vez ajuda o blogueiro preguiçoso. A metáfora da divindade que morre e renasce é tão forte que a encontramos nas figuras de Asclépio, Orfeu, Krishna, Osiris, Tammuz, Dionísio e Odin. Na verdade, a Wiki tem um lista grande de deidades zumbis. Então, relatos de Ressurreição são algo relativamente trivial e, a menos que Craig decida aceitar um politeísmo gone wild, o índice de falsos positivos é enorme. Bem, mais leitura precisa ser feita e tem outros aspectos dos argumentos de Hume que são problemáticos, mas, pelo menos quanto ao uso da probabilidade e da lógica indutiva, parece que o escocês tem razão.


Por quê discutir Filosofia da Religião?


A maioria dos filósofos profissionais de hoje em dia ainda deve torcer o nariz para o assunto. Com tanta questãozinha neoescolástica novinha em folha para ser discutida na filosofia analítica contemporânea, pra quê ainda mexer com esses temas tão batidos? Eu entendo em parte esse enfado, pois ainda sou um bocado kantiano e iluminista e costumava acreditar em algum mínimo progresso em filosofia e, em particular, acreditava que a maior parte das questões importantes que ainda garantiam um espaço para a religião na filosofia acadêmica já haviam sido resolvidas ou rejeitadas no conjunto de uma grande crítica à toda metafísica transcendente desde Kant até a Filosofia Analítica do começo do século XX. Mas a revolução técnica na lógica modal no meio do século trouxe de volta temas que pareciam enterrados pelo espírito anti-metafísico dos positivistas lógicos e seus sucessores, como o do essencialismo, uma concepção realista das modalidades e, claro, a existência de Deus. Uma enorme literatura teísta surgiu, com nomes como Alvin Plantinga e William Craig recauchutando velhos argumentos com um novo instrumental lógico e trouxe de volta o que pode ser uma fonte universal de interesse nessa discussão, que é o uso de problemas ligados à existência de Deus como estudo de caso para problemas mais gerais (e talvez mais importantes) de filosofia. Exemplos clássicos disso são o debate do conceito de existência no contexto do argumento ontológico, a discussão sobre causação e temporalidade no contexto do argumento cosmológico, a metafísica do tempo envolvida no problema dos futuros contingentes ou toda metafísica das modalidades que Leibniz criou para dar uma solução ao Problema do Mal.

Mas há uma outra motivação para discutir esses assuntos, uma motivação que eu confesso ser mais forte porquanto mais pessoal: uma motivação política e contra-apologética. A Religião teria somente esse limitado interesse como caso clínico para uma filosofia terapêutica se ela realmente se limitasse ao âmbito que ela diz ter quando evoca a liberdade constitucional de crença e quando foge das cobranças da racionalidade evocando uma experiência pessoal alheia às demandas da razão. Porém a Religião não é neutra, inócua, uma mera opinião pessoal sem maiores consequências. É por causa da prevalência que a religião ainda tem que meus amigos homossexuais não têm todos os direitos de um casal garantidos por lei. É por causa da religião que uma mulher grávida de um feto anencéfalo tem que suportar a dor de carregar um filho que não irá viver, como se todos fossem obrigados a ser mártires. É por causa da religião que um médico deixou uma menina de 13 anos morrer sem transfusão de sangue. A religião teve um papel de destaque em certo ponto das eleições presidenciais de 2010 e a busca da cooptação de um eleitorado conservador por governo e oposição só tende a aumentar esse papel no debate político. Nós estamos em país no qual uma conferência de bispos católicos tem voz na Suprema Corte em discussões que não dizem respeito à liberdade de religião, no qual a liberdade de religião é usada como desculpa para acobertar o que, no fundo, é somente um “direito” de discriminar e agredir e  que elege com mais de duzentos mil votos um pastor evangélico cujo maior feito intelectual, ao meu ver, deve ter sido o de conseguir condensar em 140 caracteres o uso de sua religião como base para seu racismo e sua homofobia. Salvo casos que vêm se tornando minoria, a religião tem usado a proteção constitucional às crenças privadas para entrar no debate da esfera pública sem, no entanto, se submeter às regras desse debate, as regras de um diálogo racional. E nesse ponto eu sou bastante iluminista: sem a Razão como um meio do diálogo, nós não obtemos uma tolerância da diversidade, mas somente um convívio potencialmente explosivo de um sem número de absolutismos.

E de alguma forma isso responde antecipadamente à crítica esperada de que os assuntos do primeiro parágrafo no fundo dizem pouco respeito aos do segundo, na medida em que ninguém acredita ou deixa de acreditar em Deus por causa do argumento ontológico e que a maioria dos pastores televisivos devem entendê-lo menos que o louco a quem Anselmo se dirigia. Eu sei que uma coisa é diferente da outra e que há casos de uma religião mais esclarecida que não implicam o tipo de atitude descrita acima. Porém a volta do tema à pauta da Filosofia não vem de uma força meramente interna à disciplina, mas está sim associada ao ressurgimento geral da Religião na sociedade. Discutir a construtibilidade ou não de um mundo possível no qual haja menos males do que o mundo atual é divertido (dentro do senso de diversão distorcido dos filósofos) e instrutivo quanto a aspectos dos modelos de modalidade utilizados, mas quando Plantinga evoca esse problema no contexto da discussão do Problema do Mal, ele está tentando salvar a racionalidade de uma das saídas que eu mais vejo ser utilizadas pelos leigos quando confrontados por essa clássica objeção ateísta. Além disso, apesar de toda a sofisticação intelectual de Plantinga e Craig, um sinal de sua associação com algumas idéias dos círculos religiosos mais conservadores dos EUA está na maneira como colocam em dúvida a evolução pela seleção natural ou até mesmo endossam o movimento do Design Inteligente. O ressurgimento desses temas em filosofia é um esforço de legitimação das posições religiosas no debate público e cabe aos críticos destas mostrar porque este lugar não lhes pertencem ou, no mínimo, estender a mão aos que têm, pelo menos, a dignidade de recorrer à via da racionalidade ao invés, por exemplo, do recurso à histeria dos pastores evangélicos e padres carismáticos.